segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Caminhada

Ainda sinto seus passos ligeiros e firmes subindo a escada. Ainda ouço o seu cantarolar vindo da cozinha. Ainda vejo você esparramada na cama, mexendo no celular ou deitada de bruços, bunda à mostra, para chamar minha atenção. Não esqueço o modo como você corria em passos curtos até a minha rede quando queria se aninhar comigo e fazer amor.

Não é fácil lidar com as memórias que ficaram, pois elas doem muito. Porém, mais difícil ainda é deixá-las partir. Abrir mão das nossas lembranças, embora a longo prazo seja libertador, também é admitir o fracasso contra o qual tanto lutamos. Pior que isso, é compactuar com a certeza de que jamais nos veremos novamente.

É por isso que teus chinelos ainda estão no mesmo lugar onde você os deixou. Essa também é a causa de ainda haver fotos nossas salvas em meu celular. É muito duro e complicado descartar tudo o que sobrou daquilo que antes me preenchia por completo.

Muitos diriam que é preciso seguir em frente, que uma pessoa vai embora, outras dez pessoas chegam. Mas nada é assim tão simples. Ainda estou aqui remoendo minha saudade e meu ressentimento em textos que ninguém lê, em vez de abrir a porta para quem de vez em quando bate procurando abrigo.

É porque tudo aqui é tão teu que não posso simplesmente limpar a casa e oferecer o melhor lugar do sofá para outra pessoa. Ainda que eu dedetizasse toda a minha vida, teu cheiro e os rastros da tua existência estariam impregnados em mim.

As vezes a saudade aperta com força, parece que vai esmagar minhas costelas. O aperto no peito me joga para a frente do computador. É uma força quase indomável que tenta me manipular para burlar os bloqueios que tu me impuseste em todas as tuas redes sociais. É a vontade de saber se ainda pensa em mim. Se demonstra se importar comigo. Se já arrumou alguém e se este alguém te faz feliz. Mas no último momento me contenho, pois tenho medo das respostas para todos esses questionamentos.

Sigo quase morto, embora vivo o suficiente para sentir a sua falta. Sigo meio morto-vivo, mas consciente o bastante para relembrar cada uma das mancadas cometidas por mim até no dia que culminou no nosso afastamento definitivo. E assim vou seguindo, sem saber se estarei com a vida ou com a morte, mas onde quer que eu vá, estou certo de que sua lembrança estará junto.