quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Penduricalhos da memória

Um par de chinelos esquecido, uma escova guardada no armário do banheiro, uma roupa suja jogada no cesto. As pessoas passam pelas nossas vidas, mas deixam os lembretes daquilo que significaram enquanto permaneceram ao nosso lado.

São evidências físicas de algo que já está gravado nos anais da memória. E como são difíceis de apagar, e como doem. Não é à toa que os episódios de Black Mirror que tratam sobre bloquear pessoas e memórias são os que mais fazem sucesso entre os fãs. É porque, no fundo, tem muita gente querendo aquele aparelho que permite tornar os outros invisíveis e deletar acontecimentos e afetos.

Bloquear ou ser bloqueado em redes sociais já é realidade. Mas há memórias que vão além delas. Arrisco dizer que os momentos mais marcantes e difíceis de serem esquecidos não são aqueles registrados em fotografias postadas no Instagram. Tem lembranças que martelam na minha cabeça ininterruptamente, mas que nunca serão visualizadas na tela de um smartphone.

Tem corpos que nunca mais nos tocarão, mas ainda conseguimos sentir o seu perfume. Como lidar com isso? A gente passa por esse processo toda vez que há um rompimento, mas nunca sabemos lidar da maneira que gostaríamos. Queríamos que não fosse doloroso, mas sempre dói, de novo, de novo e de novo.

A pessoa parte, vai embora, em busca de um caminho que lhe pareça melhor e mais agradável. A quem fica cabe descartar essas lembranças ou deixar tudo fora de vista, até que a ausência pare de fazer diferença.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Uma data feliz

Espero que não faltem motivos para teus olhos brilharem, para tuas pupilas se dilatarem de alegria e para teu sorriso espantar a penumbra da tua casa hoje. Nem sei o que escrever para a escorpiana que mais amo e que mais temo nessa vida. Um “parabéns pra você”, ou um “felicidades”? Acho que não. No dia que você quebra mais uma barreira na tua segunda década de vida, você merece um texto especial. Pena que não sai nada de muito vistoso, como eu mesmo posso constatar enquanto escrevo.

Pensando bem, não faz diferença se esse texto é medíocre. Você não vai ler mesmo. E se lesse, ainda que fosse algo digno de Cervantes, tu não ficarias feliz com a homenagem. Mas tudo que eu queria mesmo neste dia tão especial era poder voltar atrás no tempo e redefinir algumas escolhas que fiz. A começar por aquela que fiz no dia 4 do mês passado.

Queria voltar no tempo até os primórdios de nosso relacionamento. Queria ser capaz de redefinir meus passos e me transformar no homem que você idealizou. Se pudesse, teria deixado de lado a desculpa das dificuldades financeiras ( o que não era mentira) e teria comprado aquela lingerie que prometi. Sendo possível voltar atrás, faria contigo aquele passeio romântico que você queria e que eu disse ser difícil realizar mesmo como lua de mel, embora já planejasse usá-lo como presente para o nosso noivado. Sim, eu ia te pedir para ser minha noiva. É irônico que você quase tenha ouvido esse pedido de mim, mas que por conta de uma briga este noivado nunca acontecerá e tu nunca saberás que eu pretendia dar este passo adiante.

Se soubesse que nossas trajetórias se separariam dessa forma, teria te levado para as serras, praias e demais lugares que você, vez ou outra, tentava me convencer a te acompanhar. Mal sabes que eu já pesquisava lugares para passarmos juntos o final do ano.

Se soubesse que o desfecho de nossa história seria este, teria evitado tanta coisa… Teria sido mais gentil e atencioso, teria feito você se sentir mais segura, embora eu seja um poço de insegurança. Mas eu não fiz. Então meu presente pra você seria reconstruir o passado para que estivéssemos juntos no futuro.

Gostaria muito de ser o primeiro a te dar parabéns neste dia tão lindo. Mas, infelizmente, não serei sequer o último. Nem ganharei um pedaço de bolo da tua festa.

Mas eu ficarei feliz se neste dia tu estiver se sentindo feliz. Se te faz bem, te presenteio com minha ausência. Não vou causar saia justa aparecendo de sopetão para te parabenizar, nem vou lhe torrar a paciência com ligações e mensagens. O recado foi amplamente entendido depois de nosso último contato. 

Só espero que o verde de seus olhos se espalhem ao teu redor, como os olhos de Rosinha se espalharam na plantação fazendo tudo florescer. E que teu sorriso seja onipresente, independente das pessoas que escolheste para partilhar este momento. Quanto a mim, fico por aqui, com este texto sem graça publicado num blog que ninguém lê (literalmente) festejando mais um dia da tua passagem maravilhosa pela Terra. Seja feliz!!!