segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Demônios de estimação

Quem consegue domar os próprios demônios? Aqueles que permeiam a cabeça de ideias bestas e pensamentos insanos. Os mesmos que trazem de volta lembranças inadequadas e que costumam agir como sal na ferida. Quem consegue lidar com os próprios demônios e suas travessuras?

Eu ainda não consigo. Eles provocam aquela dor que lateja e nos consome a paciência e até o nosso bom senso. Nos colocam contra a parede, passando uma interminável apresentação de slides tão constrangedora quanto o power point do Ministério Público Federal. Só que no lugar de setinhas apontadas para um investigado, temos aqui a descrição de nossa desgraça particular.

Eis a minha desgraça particular. Uma mulher que me odeia, mas que a amo mais do que deveria. Uma moça  de olhos verdes que por muito tempo me brindava com seu olhar e agora me presenteia com o desprezo. Um belo presente de natal.

Também faz parte da minha desgraça particular as cagadas que fiz e que ajudaram a naufragar o nosso relacionamento. Um barco que sempre navegou em águas turvas. Para além dos meus erros, ainda me sinto martirizado pelos erros que ela cometeu, mas que de algum modo, sinto-os como se fossem minha culpa também. Um segundo a mais de indiferença, aquele dia em que briguei ao invés de buscar o diálogo. Tudo converge para tornar a minha desgraça particular uma  julgadora implacável com dedo em riste tão inquisidora quanto um determinado juiz federal acolá.

E como lidar com isso? Como cumprir sem choro ou ranger de dentes a pena que agora se abate sobre mim e contra a qual todas as instâncias de apelação já foram esgotadas? Como reverter  algo que já entrou em trânsito em julgado e nenhum advogado se propõe a pedir a anulação do julgamento?

Sinceramente eu não sei. Sei apenas que é insuportável saber que a pena tem um castigo adicional. Perceber que aqueles braços em que me aconcheguei agora abriga outro coração.

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