quinta-feira, 2 de julho de 2015

Um sentimento filho da puta



Não lhe parecia razoável que essas coisas se fizessem presentes depois de tanto tempo. No entanto, ali estavam, sorridentes como hienas diante da carniça. Sensações relegadas a algum canto escuro da memória, como móveis soterrados no porão, de repente enfeitavam novamente a sala de estar. 

E agora? De que adiantou aposentar os discos de Belchior? Vender os lps do Fagner, sobretudo aqueles que cantavam seu desesperado amor e sua ânsia pelo beijo dela? De nada serviu deixar de ouvir o lamento triste de Noturno para se deleitar no escracho de Puteiro em João Pessoa. 

Um casamento, um divórcio, dois namoros fugazes e dezenas de mulheres esporádicas de nada serviram, a não ser para adiar o inevitável: o sentimento abortado como um bebê largado na sarjeta batendo novamente à porta. “Será que alguma vez ela sentiu isso?”

“Provavelmente não”, respondeu a si mesmo para não alimentar ilusões. Preferiu ocupar sua mente conjecturando como a idade, denunciada pelos seus cabelos brancos que se misturavam à cabeleira loira, fora capaz de lhe trazer de tudo: doenças, um pouco de charme, uma aposentadoria. Mas não lhe trouxe o essencial: vergonha na cara.

Estava mesmo contrariado por se ver novamente às turras com um incômodo que julgava superado com o passar dos anos. Certamente alguém lhe mentiu ao afirmar que o tempo cura tudo. Ele não cura nada. E alguns amores são mais teimosos que doenças implacáveis. Adormecem, ficam em fogo morto, apenas para dar um golpe seco quando o sujeito menos esperar. 

E o ataque traiçoeiro pode ser em qualquer lugar. Em frente a um jardim, pois isso faz lembrar do apelido que inventou só para ela. Ou mesmo na mesa de um bar vagabundo onde o dono do estabelecimento, como numa conspiração, botou para tocar aquela canção que agora lhe tortura enquanto engole o último gole de cerveja, já quente e salobro. “Quando a gente tenta, de toda maneira, dele se guardar. Sentimento ilhado, morto, amordaçado. volta a incomodar”.