segunda-feira, 27 de abril de 2015

Escrever é sangrar

“Tudo o que você precisa fazer é sentar em frente de sua máquina de escrever e sangrar”. Essa citação de Ernest Hemingway nunca fez tanto sentido como agora. Sangrar em palavras é tao mortal como o sangue se esvair por todos os orifícios do corpo. Porque é o sangrar da alma (se é que isso existe), sangrar com os sentimentos, medos e frustrações.

É ver cada linha escrita se transformando em artéria rota levando embora palavras engasgadas dentro de nós transformadas em glóbulos brancos e vermelhos. E neste momento estou sangrando. Uma hemorragia que atinge em cheio o músculo bombeador de sangue. Que causa terríveis efeitos colaterais na mente já cansada e cética, causando vertigens que não me cegam a visão, mas o discernimento e o bom senso.

Porque quem ama não conhece bom senso. Se há uma rejeição, o rejeitado não conhece sequer o senso do ridículo. Uma amiga disse outro dia que quem ama de verdade e não consegue concretizar a relação derivada desse sentimento, padece que nem um cão. Por mais que se faça promessas de esquecer tudo  e seguir em frente, nas palavras dela: “ligar o foda-se? ‘Impossible!’” É a mais pura verdade.

A pessoa promete não buscar mais notícias, não entrar mais em contato, esquecer tudo e procurar alguém que nos dê o “verdadeiro valor que merecemos”. Quanta besteira! Ficamos feito o cachorro que é obrigado a isolar-se no quintal por ter cagado dentro de casa. Ou pior, viramos o cão sem dono e sem lar, buscando abrigo num dia de chuva.

Assim como o cachorro encolhe as patas e murcha as orelhas de tristeza, ficamos em posição fetal, relembrando momentos e palavras que fazem o sangramento aumentar até o desfalecimento do corpo. É nessas horas que percebemos o poder das palavras. “Teu amor as vezes me sufoca”. Ouvir isso foi como sentir a pessoa enfiar os dedos em nosso corte profundo para aumentar ainda mais a hemorragia.

É como uma experiência de quase morte. Chegamos a ficar fora do corpo. No momento mais crítico chegamos a nos enxergar deitados agonizando mansamente. Vemos aquele túnel com a luz incandescente indicando o final da estrada, o fim da vida e o início de algo desconhecido, que pode ser qualquer coisa, inclusive a não-existência.

Daí, se tivermos força suficiente, voltamos ao nosso corpo. Saímos do coma a que nós mesmos nos impusemos e recuperamos a consciência. É claro que como todo paciente quase morto, precisaremos de muito tempo para deixar a UTI. Para deixar a enfermaria será preciso mais tempo ainda.São etapas que vão sendo vencidas com um bom tratamento. E por mais que queiramos colo, que desejemos carinho, não há médico que nos cure a não ser nós mesmos. Não há tratamento melhor do que recuperar o amor próprio.

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