quarta-feira, 25 de março de 2015

A dor de ser cão

Foi por uma dessas tragédias cotidianas que ele se viu sem ninguém. Coleira vermelha ainda no pescoço, resquício do amor despedaçado tão repentinamente. Quando se é largado por quem se ama já é difícil aceitar.  Se isso ocorre sem aviso prévio, então, é uma pedra de sal deslizando goela abaixo sem nem ao menos água para ajudar a descer redondo.

Aqueles carinhos efusivos, aquela comida na hora certa, água sempre do lado, banhos demorados. Todas essas lembranças tornavam o cenário atual ainda mais amargo e confuso. “A quem dei tanto carinho e dedicação, agora só me despreza e me quer pelas costas. Aqueles cafunés nada mais eram do que mera ilusão”, ruminou pensativo, o mamífero sentimental de quatro patas, pêlos lisos, macios e mesclados de preto e branco.

As orelhas abaixadas, o rabo sem balançar, o coração em frangalhos. Definitivamente, eram tempos obscuros para os seres que amam. Mas um antigo provérbio cachorrês diz que nada é tão ruim que não possa piorar. Ainda mais quando se já tem 10 anos de idade e mais da metade da vida foi embora, deixando apenas rastros visíveis pelo retrovisor.

Enquanto caminhava de cabeça baixa, como se buscasse o cheiro do seu amor, o mundo lhe deu mais uma dose de sua torpe escrotidão. Sem lenço, documento e muito menos freios, um carro passou por cima do cão deixando o animal estendido na pista, levando nos pneus pinceladas preciosas de seu sangue.

O que era maldição, acabou virando benção.Uma senhora deu-lhe água, pôs remédios em suas feridas, levou-lhe para casa. Aconchegou em si mesma aquele surrado coração canino. Agarrando-se às máximas de que “precisamos perder o que queremos para ter o que merecemos”, e, de que “há males que vem para o bem”, os olhos tristes do animal voltaram a brilhar.

E o cãozinho voltou a sorrir. Os latidos vibrantes tomaram o lugar dos uivos de tristeza. O balançar frenético do rabo substituiu o deitar por cima das patas cheio de amargura. E mais uma vez ele achou que o amor duraria para sempre.

Mas na ingenuidade sentimental, os cães só são superados por certos humanos. Um belo dia, a sua dona, seu novo amor eterno, o levou para passear. Parecia mais uma volta pelos quarteirões vizinhos para fazer necessidades fisiológicas e se deliciar com bater do vento nas orelhas. Parecia. Cansada de cuidar do animal, o que considerava um fardo, a mulher o fazia ir para longe, como se estivesse tangendo gado no capinzal. Aquele frio na barriga que só sentimos quando já é tarde demais para tomar precauções, se fez presente mais uma vez no ventre do cão.

Custou-lhe acreditar que novamente a história se repetia. Nada de conversas esclarecedoras. Jamais fora convidado a discutir a relação, o que aumentava sua revolta. “Por quê simplesmente não falam o que incomoda? É melhor do que me abandonar a cada aborrecimento”, questionou inutilmente. Aquele olhar de súplica, infalível noutros momentos, agora já não surtia efeito. Lamber as pernas da sua dona, só despertou mais agressividade. Carinho, não mais.

E o cão entendeu o que parecia hermético na sua cabeça. Compreendeu que ninguém ama por obrigação e que partidas fazem parte da vida. “Sempre estamos partindo e deixando algo para trás.  Em algum momento nós é que somos deixados no passado”. Percebeu que não adianta lutar pelo outro quando a causa está perdida. Entendeu que não devia esperar pedidos de desculpas. Aceitou o fato de que não se mendiga amor, embora ele nunca deixe de ser um item de primeira necessidade.

E ele partiu. Deixou sua dona seguir em frente e saiu zanzando novamente. Não procurava respostas, apenas andava para ver o que cruzaria seu caminho. E agora, enquanto famílias brincam ou descansam com seus cães após o almoço de feriado, o cachorro está imóvel numa parada de ônibus perto do viaduto do Conjunto Esperança. Quem sabe o amor eterno que tanto almeja chegue na próxima condução.

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