domingo, 30 de agosto de 2015

Ladrão de memórias

Há males que vem mesmo para o bem. Mesmo que esse mal acabe sendo um dos traumas a carregar pelo resto da vida. É um mal com efeito colateral benéfico e pelo qual é possível viver eternamente grato, mesmo se for alguém lhe apontando uma arma de fogo na cabeça para roubar um aparelho celular.

Ela jamais seria capaz de imaginar que, dias depois de sofrer um assalto quase na porta de casa, às 6 horas da manhã, a caminho do trabalho, se lembraria com gratidão dessa experiência dolorosa. O bandido não levou apenas seu aparelho celular, mas suas fotos, seus textos, suas músicas e tudo mais que lembrava aquele amor que, agora,  tanto desejava esquecer.

O relacionamento estava fadado ao fracasso quando o assaltante apareceu e lhe privou de toda a memória afetiva armazenada no aparelho celular. Mesmo ela amando o namorado, e mesmo ele tendo enorme carinho por ela, não havia mais nada que os dois pudessem fazer, a não ser aceitar que o pra sempre, sempre acaba. Não era apenas jogo de palavras do Renato Russo, ela sabia disso agora.

Eram selfies não publicadas em nenhuma rede social, textos talhados no suor do sexo que faziam com intensidade, ou nas lágrimas causadas por cada discussão. Músicas que, uma a uma, compunham a trilha sonora do romance. Tudo isso levado embora em 30 segundos de uma manhã ensolarada.

E ela ficou assustada ao se dar conta de como tudo foi mais fácil daí em diante. Não havia mais a tentação de remoer sentimentos e lembranças, pois não havia sobrado nada, que não estivesse apenas na memória. Sem a materialização daquelas recordações em fotos ou textos, o nó na garganta ao lembrar dos planos do casal ficava mais ameno e menos complicado de ser desfeito.

E hoje ficaram só as lembranças. Não mais lembranças dolorosas, mas recordações que contribuíram para sua evolução como ser humano, e que, certamente serão fonte de conhecimento para relações futuras. Ela se pegou pensando que se topasse com aquele assaltante por aí, seria capaz de lhe dar um beijo de agradecimento.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Um sentimento filho da puta



Não lhe parecia razoável que essas coisas se fizessem presentes depois de tanto tempo. No entanto, ali estavam, sorridentes como hienas diante da carniça. Sensações relegadas a algum canto escuro da memória, como móveis soterrados no porão, de repente enfeitavam novamente a sala de estar. 

E agora? De que adiantou aposentar os discos de Belchior? Vender os lps do Fagner, sobretudo aqueles que cantavam seu desesperado amor e sua ânsia pelo beijo dela? De nada serviu deixar de ouvir o lamento triste de Noturno para se deleitar no escracho de Puteiro em João Pessoa. 

Um casamento, um divórcio, dois namoros fugazes e dezenas de mulheres esporádicas de nada serviram, a não ser para adiar o inevitável: o sentimento abortado como um bebê largado na sarjeta batendo novamente à porta. “Será que alguma vez ela sentiu isso?”

“Provavelmente não”, respondeu a si mesmo para não alimentar ilusões. Preferiu ocupar sua mente conjecturando como a idade, denunciada pelos seus cabelos brancos que se misturavam à cabeleira loira, fora capaz de lhe trazer de tudo: doenças, um pouco de charme, uma aposentadoria. Mas não lhe trouxe o essencial: vergonha na cara.

Estava mesmo contrariado por se ver novamente às turras com um incômodo que julgava superado com o passar dos anos. Certamente alguém lhe mentiu ao afirmar que o tempo cura tudo. Ele não cura nada. E alguns amores são mais teimosos que doenças implacáveis. Adormecem, ficam em fogo morto, apenas para dar um golpe seco quando o sujeito menos esperar. 

E o ataque traiçoeiro pode ser em qualquer lugar. Em frente a um jardim, pois isso faz lembrar do apelido que inventou só para ela. Ou mesmo na mesa de um bar vagabundo onde o dono do estabelecimento, como numa conspiração, botou para tocar aquela canção que agora lhe tortura enquanto engole o último gole de cerveja, já quente e salobro. “Quando a gente tenta, de toda maneira, dele se guardar. Sentimento ilhado, morto, amordaçado. volta a incomodar”.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Somos seres que rastejam

Fico tateando o ar para ver se esbarro no teu corpo. Bisbilhoto meus aplicativos de conversa para dar de cara com algum recado teu. Acesso o Facebook para ver se acho teu sorriso triste, teus olhos melancólicos e tua boca tingida de roxo em alguma foto.


Infelizmente, ainda não se inventou remédio capaz de curar a dor da ausência, o desconforto do rompimento e o desespero de saber que uma história que daria um belo livro, acabou como um medíocre obituário no rodapé do jornal..


Agora faz sentido quando você disse através de uma citação de Leminski, que pessoas não deviam deixar lembranças, nem apertos no coração que tiram o sono. Não era você que perdia o sono comigo, mas o inverso. Você sumiu talvez por remorso, ou simplesmente cansaço de ter alguém ali,te dando o melhor que podia na tentativa tola, porém  pura, de te trazer para meu lado. Engano seu achar que sumir levaria consigo todos os sentimentos e lembranças que plantaste em mim. O teu sorriso continua no meu peito. O teu rosto segue cravado na memória.


Sou capaz de ouvir tua voz chamando meu nome carinhosamente, mas não consegui perceber que o fazia com ternura de amigo, não mais com a paixão de uma amante. Sinto a textura macia de tua boca, a delicadeza dos teus lábios deslizando suave pelos meus, mas não aceitei que aquele seria último beijo, porque você se deu conta de que não pode expulsar quem já mora no recanto que tanto desejo ocupar no teu peito.


Talvez você tenha sumido de meu alcance para não me ver lutando por ti. Quem sabe assim,você consiga rastejar com maior desenvoltura aos pés de quem agora te esnoba.

Te desejo sorte na sua nova vida de ser rastejante. Não sei se é meu lado voyeur incontrolável, mas ainda te vejo por aí, sangrando em praça pública, buscando algo que teve em tuas mãos, mas que agora se perdeu.Somos dois inconformados. A diferença é que não rastejo mais, apenas me debato com as nossas lembranças. É uma maneira mais civilizada de lidar com a tragédia.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Escrever é sangrar

“Tudo o que você precisa fazer é sentar em frente de sua máquina de escrever e sangrar”. Essa citação de Ernest Hemingway nunca fez tanto sentido como agora. Sangrar em palavras é tao mortal como o sangue se esvair por todos os orifícios do corpo. Porque é o sangrar da alma (se é que isso existe), sangrar com os sentimentos, medos e frustrações.

É ver cada linha escrita se transformando em artéria rota levando embora palavras engasgadas dentro de nós transformadas em glóbulos brancos e vermelhos. E neste momento estou sangrando. Uma hemorragia que atinge em cheio o músculo bombeador de sangue. Que causa terríveis efeitos colaterais na mente já cansada e cética, causando vertigens que não me cegam a visão, mas o discernimento e o bom senso.

Porque quem ama não conhece bom senso. Se há uma rejeição, o rejeitado não conhece sequer o senso do ridículo. Uma amiga disse outro dia que quem ama de verdade e não consegue concretizar a relação derivada desse sentimento, padece que nem um cão. Por mais que se faça promessas de esquecer tudo  e seguir em frente, nas palavras dela: “ligar o foda-se? ‘Impossible!’” É a mais pura verdade.

A pessoa promete não buscar mais notícias, não entrar mais em contato, esquecer tudo e procurar alguém que nos dê o “verdadeiro valor que merecemos”. Quanta besteira! Ficamos feito o cachorro que é obrigado a isolar-se no quintal por ter cagado dentro de casa. Ou pior, viramos o cão sem dono e sem lar, buscando abrigo num dia de chuva.

Assim como o cachorro encolhe as patas e murcha as orelhas de tristeza, ficamos em posição fetal, relembrando momentos e palavras que fazem o sangramento aumentar até o desfalecimento do corpo. É nessas horas que percebemos o poder das palavras. “Teu amor as vezes me sufoca”. Ouvir isso foi como sentir a pessoa enfiar os dedos em nosso corte profundo para aumentar ainda mais a hemorragia.

É como uma experiência de quase morte. Chegamos a ficar fora do corpo. No momento mais crítico chegamos a nos enxergar deitados agonizando mansamente. Vemos aquele túnel com a luz incandescente indicando o final da estrada, o fim da vida e o início de algo desconhecido, que pode ser qualquer coisa, inclusive a não-existência.

Daí, se tivermos força suficiente, voltamos ao nosso corpo. Saímos do coma a que nós mesmos nos impusemos e recuperamos a consciência. É claro que como todo paciente quase morto, precisaremos de muito tempo para deixar a UTI. Para deixar a enfermaria será preciso mais tempo ainda.São etapas que vão sendo vencidas com um bom tratamento. E por mais que queiramos colo, que desejemos carinho, não há médico que nos cure a não ser nós mesmos. Não há tratamento melhor do que recuperar o amor próprio.

quarta-feira, 25 de março de 2015

A dor de ser cão

Foi por uma dessas tragédias cotidianas que ele se viu sem ninguém. Coleira vermelha ainda no pescoço, resquício do amor despedaçado tão repentinamente. Quando se é largado por quem se ama já é difícil aceitar.  Se isso ocorre sem aviso prévio, então, é uma pedra de sal deslizando goela abaixo sem nem ao menos água para ajudar a descer redondo.

Aqueles carinhos efusivos, aquela comida na hora certa, água sempre do lado, banhos demorados. Todas essas lembranças tornavam o cenário atual ainda mais amargo e confuso. “A quem dei tanto carinho e dedicação, agora só me despreza e me quer pelas costas. Aqueles cafunés nada mais eram do que mera ilusão”, ruminou pensativo, o mamífero sentimental de quatro patas, pêlos lisos, macios e mesclados de preto e branco.

As orelhas abaixadas, o rabo sem balançar, o coração em frangalhos. Definitivamente, eram tempos obscuros para os seres que amam. Mas um antigo provérbio cachorrês diz que nada é tão ruim que não possa piorar. Ainda mais quando se já tem 10 anos de idade e mais da metade da vida foi embora, deixando apenas rastros visíveis pelo retrovisor.

Enquanto caminhava de cabeça baixa, como se buscasse o cheiro do seu amor, o mundo lhe deu mais uma dose de sua torpe escrotidão. Sem lenço, documento e muito menos freios, um carro passou por cima do cão deixando o animal estendido na pista, levando nos pneus pinceladas preciosas de seu sangue.

O que era maldição, acabou virando benção.Uma senhora deu-lhe água, pôs remédios em suas feridas, levou-lhe para casa. Aconchegou em si mesma aquele surrado coração canino. Agarrando-se às máximas de que “precisamos perder o que queremos para ter o que merecemos”, e, de que “há males que vem para o bem”, os olhos tristes do animal voltaram a brilhar.

E o cãozinho voltou a sorrir. Os latidos vibrantes tomaram o lugar dos uivos de tristeza. O balançar frenético do rabo substituiu o deitar por cima das patas cheio de amargura. E mais uma vez ele achou que o amor duraria para sempre.

Mas na ingenuidade sentimental, os cães só são superados por certos humanos. Um belo dia, a sua dona, seu novo amor eterno, o levou para passear. Parecia mais uma volta pelos quarteirões vizinhos para fazer necessidades fisiológicas e se deliciar com bater do vento nas orelhas. Parecia. Cansada de cuidar do animal, o que considerava um fardo, a mulher o fazia ir para longe, como se estivesse tangendo gado no capinzal. Aquele frio na barriga que só sentimos quando já é tarde demais para tomar precauções, se fez presente mais uma vez no ventre do cão.

Custou-lhe acreditar que novamente a história se repetia. Nada de conversas esclarecedoras. Jamais fora convidado a discutir a relação, o que aumentava sua revolta. “Por quê simplesmente não falam o que incomoda? É melhor do que me abandonar a cada aborrecimento”, questionou inutilmente. Aquele olhar de súplica, infalível noutros momentos, agora já não surtia efeito. Lamber as pernas da sua dona, só despertou mais agressividade. Carinho, não mais.

E o cão entendeu o que parecia hermético na sua cabeça. Compreendeu que ninguém ama por obrigação e que partidas fazem parte da vida. “Sempre estamos partindo e deixando algo para trás.  Em algum momento nós é que somos deixados no passado”. Percebeu que não adianta lutar pelo outro quando a causa está perdida. Entendeu que não devia esperar pedidos de desculpas. Aceitou o fato de que não se mendiga amor, embora ele nunca deixe de ser um item de primeira necessidade.

E ele partiu. Deixou sua dona seguir em frente e saiu zanzando novamente. Não procurava respostas, apenas andava para ver o que cruzaria seu caminho. E agora, enquanto famílias brincam ou descansam com seus cães após o almoço de feriado, o cachorro está imóvel numa parada de ônibus perto do viaduto do Conjunto Esperança. Quem sabe o amor eterno que tanto almeja chegue na próxima condução.

quinta-feira, 5 de março de 2015

A doce existência de Luna



A Providência, ou quem que seja o responsável pelas leis do universo, sempre nos manda sinais quando algo importante está para acontecer e quase sempre estamos ocupados demais para reparar neles. Mas esta manhã, ao levantar com a certeza de que você está entre nós, subitamente tudo começou a fazer sentido. 

Não é de admirar que essa quinta-feira com cara de sexta, véspera da data predileta de todo assalariado- que é o quinto dia útil do mês- esteja incrivelmente bonita. Enquanto te escrevo esta crônica, com o estômago a anunciar que se aproxima a hora do almoço, compreendo porque o dia amanheceu com um sol quente e cheio de vida, para em seguida, dar lugar a um temporal.

É que o Sol não podia oferecer nada menos do que a sua luz mais bonita para enfeitar a nascente de onde desponta. Obra de arte sem pincel e tinta na maior aquarela que existe, para você saber que a vida é bela, apesar de muitas vezes dolorosa. A chuva veio para lavar a maldade do mundo, para que pelo menos hoje, na tua estreia entre os mais de sete bilhões de atores, que interpretam essa tragicomédia que chamamos de civilização humana, não haja iniquidade ao teu redor. 

Já não me causa estranheza que um furão tenha se acomodado na garupa de um pica-pau. Uns disseram que a cena registrada num parque de Londres era uma luta pela vida, onde o pássaro era a presa do carnívoro pertencente à família dos mustelídeos. Prefiro crer que queriam encontrar uma rota rápida de Londres a Fortaleza, e devem ter concluído que é verdadeiro o clichê que diz: duas cabeças pensam melhor que uma. 

E quando chegarem à Praia de Iracema partirão rumo ao Centro da cidade para te ver ainda nos braços acolhedores da Flor que te trouxe à vida, no leito da maternidade. Se eu os encontrar vagando por aí, peço permissão para guia-los até tua casa.

 Após descansarem da viagem sob a sombra do cajueiro reinante no quintal, certamente se debruçarão sobre teu berço para te admirar. Contemplarão o teu sorriso travestido de timidez, idêntico ao da tua mãe,  que você ostenta naquela foto compartilhada por teu pai numa rede social. 

Ele parece tão feliz e me alegro por sua felicidade, mesmo sabendo que o sorriso dele, se realiza às custas da minha tristeza. É que ainda antes de nascer, quando estava deixando de ser pólen para se transformar numa florzinha, tu me ensinaste que amar é querer bem mesmo estando longe. E o meu amor por ti é extensão daquele que sinto por tua mãe. 
 
É provável que nunca nos conheçamos e que nunca te entregue o presente que venho guardando para te dar quando você aprender a ler. Não faz mal. Já me sinto feliz por saber que tu colocaste os pés na Terra gozando de imensa saúde e muito amor. O mundo, de agora em diante, será um lugar melhor para se viver, pois te temos conosco. Pois como teu nome mesmo diz, tu és aquela que é cheia de pureza. Bem vinda à vida, Luna.