quarta-feira, 29 de outubro de 2014

123 dias sem ela

Hoje completo 123 dias sem você. Não me censure pela data quebrada, na verdade até prefiro números arredondados, mas a saudade calhou de esfaquear meu peito logo no centésimo vigésimo terceiro dia que estou sem te ver. Não foi numa quarta-feira como hoje, dia comercial com cara de cinzas de carnaval, mas numa noite de sábado que olhei teu corpo pela última vez.

Ainda lembro cada movimento que fizeste em minha chegada. Levantou-se do sofá onde estava deitada, de ladinho, blusa de manga longa, bermuda jeans, cabelos caídos cobrindo o pescoço. “Minha moleca”, pensei comigo. Minha vontade era acariciar teus cabelos e dar um beijo na testa, quem sabe na boca. Mas olhos vigilantes espreitavam nossos sentimentos e censuravam as loucuras que carregamos no quengo e não ousamos dizer a ninguém.

Fiquei só na vontade. Se soubesse que o desejo não saciado perduraria pela próxima centena de dias, teria furado os olhos bisbilhoteiros que inibem meu amor por ti. A despeito da ausência física, sinto a essência de teu ser. Não há canto de parede para onde olhe que eu não te veja usando uma de minhas blusas do Pink Floyd e a calcinha de renda preta, que acidentalmente deixaste à mostra naquela noite. Aposto que não sabia que eu tinha visto. Ora te vejo encostada na parede, ora comendo alguma coisa, ou mesmo mexendo nos cabelos. Sabia que ver-te brincando com as madeixas era um dos meus passatempos favoritos? Isso quando não tinham usurpado o meu direito de ficar em tua presença.

Apesar das juras de esquecimento que já fiz, das mandingas que planejo para te expurgar da minha mente e do exorcismo que já encomendei ao padre Merrin, basta fechar meus olhos para que eles encontrem os teus. Noite passada acordei com tuas mãos arredondadas e teus dedos longos percorrendo meu tórax. Foi apenas mais um sonho para a minha coleção de arremedos criados para diluir a tristeza.

E assim vou atravessando os dias. Criando fantasias para amenizar a dureza da realidade. É como o flagelado que eu fui quando criança: matava a sede com água barrenta. Ou como minha mãe e tias: coziam folha de palma para alimentar a família assolada pela seca. Hoje padeço de fome e sede tão violentas quanto as que me fustigaram na infância. Mas sobreviverei tal qual naquela época. Os meus sonhos serão a palma. Minhas lágrimas a água barrenta. O amor pulsante no peito, a promessa de dias melhores.