domingo, 17 de agosto de 2014

Desencontro



Queria mesmo uma overdose de Leonard Cohen. Nenhum outro ser humano parecia lhe entender com tanta clareza. Voltou a aquela pasta aberta do poeta com canções de 1968. Deu play novamente e ficou olhando para a tela do computador. O branco do Word quase lhe cega os olhos, mas escrever é tão necessário quanto respirar. Afinal, é assim que ganha a vida. Escrevendo para milhares de pessoas que passam direto pela página assinada por ele, quando o assunto não lhes interessa.

Mas tudo o que deseja agora é exorcizar aquele fantasma de sua mente lançando mão da escrita. Arrancar aquela criatura doce, meiga e misteriosa de seu coração. Cada frase, uma lembrança destruída. Cada vírgula, um momento esquecido. Cada parágrafo, um traço daquele rosto bonito que sua mente não reconhece mais. Tudo em vão, porém. Ingênuo, não sabe que desamar não é como fumar um cigarro. Vai lembrar dela durante anos, e, mesmo com toda a tristeza que sentir, vez ou outra vai se flagrar sorrindo pensando em como seria lindo se o amor fosse concretizado.

Não adianta tentar desvendar o que se passa naquela cabeça, adornada pelos cabelos lisos e negros que tanto quis sentir entre seus dedos no meio de uma carícia. Investigar o coração da moça para saber se ele realmente bate acelerado por causa do seu sotaque? Impossível! Nem o estetoscópio mais potente lhe dirá se o compasso das batidas é alegre como um samba ou trágico como um tango.

Diabo! As canções de Cohen são mesmo lindas, mas não trazem resposta alguma! Os versos açoitados pelos acordes serenos do violão descrevem perfeitamente o que sentiu e passou nos últimos dias. “Traveling lady stay a while until the night is over. I'm just a station on your way, I know I'm not your lover”. Mas não encontra reposta para seus porquês. E eram muitos!

O Por quê de achar a mulher de sua vida (até agora) na noiva de um amigo era o primeiro deles. E talvez o mais urgente, pois daí poderiam surgir outras respostas. Nem sequer se empenha em desvendar o enigma. Porque neste momento lhe vem à mente outro poeta brasileiro, cujo maior êxito foi imortalizado por Caetano Veloso. “Tudo era apenas uma brincadeira. E foi crescendo, crescendo, me absorvendo, e de repente eu me vi assim: completamente seu”. Sim! Era isso mesmo. Quando a viu entrar pela porta da casa do amigo, short azul, blusa estampada e sorriso envergonhado, quase camuflado pelo batom preto (ou seria vermelho?), não teve dúvidas: estou lascado! Ao relembrar isso sentiu vontade de exclamar “eureca!”, que nem o professor Pardal.

A própria existência daquela criaturinha terna e delicada era a razão do primeiro Por quê. E cada encontro era um flerte novo, involuntário, febril, fulminante para o coração, como uma cabeçada de Dadá Maravilha é implacável com o goleiro. Cada convite para ir à casa do amigo beber e jogar conversa fora passou a ser irrecusável.

As trocas de olhares logo na primeira noite foram inevitáveis. Sim, ela percebeu o interesse e não rechaçou. Queria saber até onde iria a brincadeira. Numa roda de amigos posterior foram os pés que teimaram em se encontrar. Na impossibilidade do primeiro beijo lascivo e descompromissado, no infortúnio das duas mãos que não podiam se tocar, coube aos pés se cortejarem. Ela retira o pé, mas depois põe de volta. Era uma valsa silenciosa dançada sob a melodia da discrição. Ali, sob os olhos de todos, mas sem a atenção de ninguém.

De lá para cá foram tantos encontros, tantas cervejas entornadas para abafar as palavras que vinham até o céu da boca, mas desciam sufocadas pela cevada estômago abaixo. O Wahtsapp. Ah, se esse aplicativo falasse! Pior que fala. Reproduziu semanas a fio, em textos e gravações de voz o que lhes era negado sussurrar no ouvido.

No início eram apenas confidências. A moça lhe abriu parte do coração e relatou fragmentos da tristeza que dizia sentir ao lado do noivo. Foi aí que ele ganhou ânimo, afinal, havia uma chance. As conversas foram ficando mais atrevidas, e nunca que a moça rechaçava com firmeza. Que nada! Ficaram mais constantes e cada vez mais longas.

E veio a primeira declaração de amor. Escrevia ligeiramente o que sentia durante todo o tempo e apagava tudo em seguida. Afinal, estava uma droga! Até o dia em que se decidiu e enviou a mensagem de uma só vez, mesmo com erros ortográficos causados pelo corretor do celular, que nada corrige, só distorce. Tal qual o sentimento que lhe arrebata.

A descrição de sonhos eróticos que faziam enrubescer a moça foi o passo seguinte. Ela admitir que também estava apaixonada, foi o momento posterior. E tudo foi aumentando de tom, que nem Steve Vai delirando ao fazer sua guitarra chorar melódica e aguda durante a execução de um solo.

Era um amor construído à base de palavras e acordes. Talvez o ápice tenha sido quando lhe enviou Thank You, do Led Zeppelin. “When mountains crumble to the sea, There will still be you and me”. Sim! Após repassar todas essas recordações era a isso que se apegava. O seu amor naufragava antes mesmo de chegar ao oceano, mas se agarrava a uma última e incerta esperança, como o soldado que fica sem balas, mas não se rende, faz do fuzil sua baioneta.

O amargo que agora lhe tira a sede e cessa o apetite é a falta do beijo nunca dado. O frio que sente é a ausência do calor daquele corpo delicado e cheio de curvas na sua rede. A insônia é o coração lhe exigindo o que parece ser seu de direito, mas não de fato. A angústia é a certeza de que esteve perto demais do que julgava ser a felicidade e não conseguiu agarrá-la. Esse texto é a frustração do orgasmo não sentido, do relacionamento não consumado, do amor abortado. É o lamento dos filmes que prometeram ver juntos, mas que cada um verá sozinho.

E a única certeza é que após semanas, ou mesmo anos, tudo termina como uma canção de Fagner. “Quando a gente tenta de toda maneira dele se guardar. Sentimento ilhado, morto, amordaçado, volta a incomodar”.