quinta-feira, 25 de setembro de 2014

O vendedor de água



Ficava boa parte do tempo olhando para o nada. Até o telefone tocar e ele colocar os garrafões de água e sair de casa para fazer as entregas dos seus clientes. Tornara-se tão mesquinho quanto solitário. Sua vingança pelo mundo não lhe dar a mínima era vender garrafões de água mineral por um valor pouco acima da concorrência. Ainda assim, com seus modos falsamente gentis e sua simpatia forçada, cativava a clientela evitando assim morrer de fome.

Não era má pessoa. Também não era boa. Era um indivíduo sem sal, tempero, colorau, alho, cebola ou pimenta de cheiro. Era um sujeito triste. Triste no sorrir, no andar, no falar. Não que vivesse reclamando do mundo, isso só fazia consigo mesmo. 

Era tão desprovido de conteúdo que se limitava a falar do Palmeiras e do Ceará, seus times do coração. Nada de política. Votava em quem tivesse mais chances de vitória, para não perder o voto. “Quem usa brinco é viado. Tatuagem é enfeite de maconheiro. Maconha é coisa de bandido”. Eram seus princípios. Os comentários futebolísticos eram tão ruins quanto as cantadas com as quais não conquistava ninguém. Resignou-se em ter a masturbação como companheira e válvula de escape da vida sem siginificado. 

Não é que tivesse uma vida ruim. Tinha um emprego que lhe permitira comprar um carro. Nada mal para quem atravessou o trigésimo aniversário alimentando-se e vestindo-se à custa das aposentadorias dos pais. Vender água mineral na própria casa foi uma forma de recuperar um pouco de sua dignidade e de sua conta bancária. E era o próprio patrão. Quê mais poderia querer?

Queria deixar de ser tão medíocre. Sim! Sabia da própria insignificância, mas preferia acreditar que o mundo era complicado demais. As mulheres eram complicadas demais. E é aí que residia o insosso de sua vida. Cobiçava todas as mulheres que passavam na sua frente, mas não chegava perto de nenhuma. Cobiçou minha ex-namorada. Sempre que a moça ia à minha casa, com seus vestidos um pouco acima dos joelhos, as pernas sempre à mostra e bem torneadas pela natação, a cintura fina, sobressalente pelas roupas pin up, era alvo dos olhares sedentos do solitário entregador de água.

Desejava vorazmente a mulher do próprio irmão, e a maioria das moças que frequentava a igreja. Achou que a religião lhe traria respostas, mas os cultos eram maçantes e os sermões do pastor nada lhe diziam. Mas continuava frequentando o templo todos os domingos. Ver as meninas-moças em seus vestidos colados e compridos, com um decote aqui e outro acolá mostrando algo mais, era melhor do que assistir o Domingão do Faustão. Já bastava ter que passar as noites úmidas e calorentas do Conjunto Esperança vendo o Programa do Ratinho.

 Não tinha TV a cabo. Achava um luxo desnecessário. Então, ver filmes de ação (os seus prediletos), só na Tela Quente. Fazer sua atividade favorita depois de comer e dormir: masturbar-se, vendo o Sexy Hot, ou mesmo assistindo o Multishow, após a meia-noite, também estava fora de questão. A masturbação era o momento do dia em que ele mais fazia uso da imaginação. Adquira uma memória espantosa e uma incrível capacidade de recriar cenas na sua cabeça. É que o Cine Band Privê só passava uma vez por semana e ele decorava os momentos mais quentes de cada filme para ter com o que fantasiar na sua putaria-íntima-diária.

Houve um tempo em que recorria a cabarés para acalmar a sua volúpia. Mas percebeu que suas finanças corriam sério risco de deterioração. Desistiu de vez dos festejos noturnos, quando uma vez embebedado, lhe tiraram os tênis Nike falsificados, comprados por R$ 40 a um coreano na Feira da Parangaba. Também levaram as cinco onças que tinha na carteira. Travessura de duas moças com quem havia saído. Desse dia em diante, achou que nenhuma mulher merecia ser tratada como “mulher direita”, segundo seus próprios conceitos sobre o que vem a ser isso. Passou a detestá-las tanto quanto as queria. 

Não era de todo feio, mas se achava tão insípido, que só sentia alguma segurança com o sexo oposto quando dirigia o seu Corolla, ano 2003, comprado com as economias de anos de trabalho. Mesmo assim, as investidas eram raras e problemáticas. Não sabia o que se passava consigo. Ou até sabia, pois era impossível esquecer. Uma noite chegou em casa. Não a casa onde agora vivia, mas a residência que já dividira com sua ex-esposa. Havia um silêncio incomum que só era interrompido por algo parecido com ranger de dentes. À medida que adentrava o imóvel, ouvia o barulho cada vez mais forte. Cinco passos adiante e teve certeza que o som desagradável vinha de seu quarto. Não era ranger de dentes, mas o ranger da cama. Da sua cama, onde dormia com a esposa diariamente e fazia sexo com ela uma vez por semana, as vezes duas.

Ao parar em frente à porta entreaberta, seu rosto ficou pálido, para em seguida avermelhar por completo. Sentiu os músculos da face retesados, o maxilar rígido pressionava os dentes inferiores contra os superiores. Estava entalado não sabia com o que, mas era algo que o impedia de ao menos balbuciar um lamento. O sangue no seu corpo pulsava acompanhando a toada do balançar da cama e seus rangidos, cujo ritmo era ditado pelas estocadas que a esposa recebia de seu amante. 

Lembrar aquilo era tortura, mas acabou se tornando um vício. Era como se precisasse tomar uma dose diária de ódio para manter-se vivo. Precisava lembrar como tudo aconteceu para despojar-se da culpa pela mediocridade em sua vida, jogando tudo sobre os ombros da ex-esposa. Não importava os sinais que ela vinha dando da falência da relação. Não fazia diferença se ela já tinha ido embora para casa dos pais várias vezes antes de ser flagrada copulando com outro, para em seguida voltar por pena do marido que dizia não saber viver sem ela. Ele não sabia viver de forma alguma, mas não entendia que esse era o problema. Também não reparara no abrir de pernas protocolar da esposa e no virar de rosto obsceno, enquanto esperava seu marido estrebuchar por dez ou quinze minutos até ejacular em sua barriga. Era o mesmo ritual toda vez que ele a procurava. Ela já não o fazia mais. Ele transava com um corpo inanimado. Não fosse a respiração mansa e preguiçosa, as batidas tranquilas do coração e o sentimento de pena e repulsa da esposa, não seria exagero dizer que ele era praticante de necrofilia.

Não fazia diferença para ele que a esposa se incomodasse com seu ciúme doentio. Ou que se enraivecesse mais ainda com a falta de carinhos, ou demonstrações de afeto do homem que tentava colocar-lhe cabresto até na ida à padaria. Havia muitos outros sinais visíveis em letreiros luminosos no semblante de sua esposa, mas o homem era egoísta demais para percebê-los. Pior que isso. Era acomodado. Terrivelmente acomodado. Não vivia. Assistia a vida passar  sinuosa e instigante tal qual fazia agora entre garrafões de água e ejaculações no chão da sala. “Mas não vale a pena encarar as coisas assim. A vida é complicada demais”, pensou mais uma vez, enquanto desabotoava a bermuda para masturbar-se novamente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

manifeste-se