segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Espírito empoeirado



Sentia-se lento, triste e amargo como aquele blues de Billy Gibbons. Abriu os olhos e deixou a música rolar até que enjoasse. “Like takin' eyesight from the blind man and money from the poor that woman took my lovin' and walked on out that door. And it sure got cold after the rain fell, not from the sky, from my eye”.

Acordou com a garganta em fogo, mas não era nenhuma inflamação, mas um vazio provocado pela ausência Dela. Levantou estranhamente mais cedo do que nas últimas semanas e estava surpreso pela noite relativamente bem dormida. Algo raro naqueles dias. A inexistência do corpo Dela junto ao seu não lhe causou surpresa. Nenhuma perda lhe causava estranheza. Não mais.

Olhou para o relógio digital na estante e ele denunciava o que ainda se recusava a ver: o sol entrando por entre as frestas do telhado. O hábito de dormir na sala de estar tinha a vantagem de mostrar que já ficara deitado tempo o bastante sempre que o sol nascia. 

Havia coisas a fazer naquele dia. Colocar o pé na faculdade pela primeira vez no semestre era a mais urgente delas. Devolver os livros na biblioteca com empréstimos terrivelmente atrasados era outra. Mas não queria nada daquilo. Temia que ao sair na rua, o seu semblante denunciasse seu estado de espírito. “Primeira vez que você dá as caras e é assim que me aparece”, indagaria o professor, tão fracassado quanto seu aluno, mas sempre com o ar de superioridade tão comum aos acadêmicos pedantes. A certeza de enfrentar duas horas de ônibus lotado e engarrafamentos infindáveis também não o animou.

A grande verdade é que gostaria de fazer uma ligação. Ligar para Ela e dizer “sinto muito”, mas achava que estava com a razão na última briga que tiveram e ela não admitiria. Ao passo que a amava freneticamente, começava a perceber que Ela enxergava os fatos com um viés totalmente diferente do seu. Por vezes até distorcido. Foi aí que se deu conta de que a Moça provavelmente pensava o mesmo a seu respeito, e talvez os dois fossem coerentes em apontar esse defeito no outro. Maturidade era algo em falta naquela relação, a despeito da crença compartilhada por ambos de que sabiam até o que Raul Seixas queria dizer quando escreveu Gita.

Fez o café, algo que se gabava de fazer melhor numa cozinha. Naquela manhã, ao invés do gosto levemente forte e pulsante, havia apenas amargo. Duas colheres a mais de açúcar deveria resolver. Nada! Mais uma. O amargo não foi embora. Engoliu mesmo assim e foi ler o jornal, mas nada lhe prendia a atenção. O interesse morreu de vez quando leu sua matéria, publicada na capa do periódico que pagava seu salário. “O editor fez aquilo que é pago para fazer: cagar os textos alheios”, foi o que pensou, já no primeiro parágrafo. 

Foi até o Whatsapp e passou os olhos nas derradeiras palavras deixadas pela Moça antes de bloqueá-lo: “Na boa, eu não te aguento mais”. A sensação de reler aquilo era a mesma da noite anterior. Uma sequência de socos entre o estômago e o pescoço lhe acertara. Cada palavra, um nocaute. Caiu no chão em posição fetal querendo chorar. Poucas lágrimas desciam e era um choro sem força, apenas protocolar. “Deve ser como dizem, quando a dor é grande demais ela mesma nos anestesia”, foi a única explicação que encontrou.

Desbloqueou-a no Facebook e foi terminar seu martírio olhando a foto do perfil Dela. “Meu Deus, não sei se eu a amo porque é linda, ou se é linda porque a amo”. Foi aí que as lágrimas caíram com força. Deixou correr, uma a uma, até ensoparem a sua camiseta. ZZ Top continuava executando a música que embalava todo esse monólogo triste e tedioso, que só a poeira de seu estereótipo de "casa de homem solteiro assistia". E a canção fazia perguntas incrivelmente pertinentes, que ecoariam em sua cabeça meses adentro. “Somebody, can you tell me just what make a man feel this way? Like river without its water, like night without a day”.

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