segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Enfim, um epílogo



Chegou ao lugar marcado com incríveis sete minutos de antecedência. Um milagre! Tinha o hábito de sempre chegar alguns minutinhos depois do horário em qualquer compromisso. Ao sentar no banco da praça ainda morno pelo calor do sol, repassou seus passos de casa até ali. Percurso feito a pé. Lembrou que apesar de ganhar a vida ouvindo as pessoas e escrevendo histórias, não resistiu ao clichê de pensar cada diálogo que teria com a moça. Tudo para não demonstrar nervosismo na frente da sua Flor.

Fantasiava com o que a garota havia dito na noite anterior e que, mesmo sabendo- eram apenas palavras, como tudo o que tivera dela até ali- o enchia de esperanças. Afinal, era um realista esperançoso. Mais esperançoso que realista: “As vezes fico imaginando você bêbado e falando pra mim: ‘moça, você é minha, não dele. E me tomando pela mão, me leva pra ficar junto de ti, num movimento leve que me faz ir contigo sem hesitar”. 

Quando ela aparecesse diria logo de cara: “não achou que eu viria bêbado para o encontro mais importante da minha vida, achou?”. Mas, de súbito, o realista tomou as rédeas do esperançoso. Lembrou que assim como havia marcado o encontro, a moça havia dito que ia pensar, e depois que não iria. Mesmo assim, o rapaz prometeu ir e esperar dez minutos. E assim o fez. Seis minutos já corriam em forma de areia na ampulheta imaginária que via no parque de diversões desmontado à sua frente. Torcia para que cada grão de areia caísse cada vez mais preguiçoso, e que essa preguiça contagiasse os outros grãos, deixando-os sem vontade de descer para a parte de baixo.

Os quatro minutos restantes de fato se arrastavam. E cada segundo a mais era a angústia formada na luta feroz dentro de si. Sabia que a moça não viria, mas torcia para que viesse. É como o moribundo em estado terminal, sabe que a morte está na antessala esperando para pegar sua mão e levá-lo embora, mas se agarra a qualquer fio de esperança. Se não existe esperança, ele inventa.

E o rapaz inventava. Não importa que a moça tenha dito que o amava, mas que também amava o noivo. Que estando grávida desse noivo pretendia construir uma casa. Comprar roupinhas para a criança e formar uma família. Cada frase dita por ela era um corte na carne, mas não se importava. Sabia que era preciso passar por aquilo. Era o seu último esforço por ela que dizia um protocolar: “admiro seu esforço”. Combatia as chicotadas violentas da realidade com as palavras doces do sonho que os dois compartilhavam havia meses. “As vezes penso em você quando estou com ele e tenho medo de sem querer dizer teu nome”.

Passaram-se os dez minutos, mas não sua fé. Esperou quinze minutos. E investigou toda silhueta que caminhava longe do outro lado da praça, no desejo de reconhecer nela o corpo da Flor caminhando em sua direção. Vinte minutos se passaram. Engoliu o choro, se levantou e foi para outro ponto da praça, onde julgava ficar mais visível e assim ela não demoraria muito lhe procurando. Nos fones de ouvido tocava Echoes, do Pink Floyd, e a guitarra etérea de David Gilmour chorava por ele, que não queria lágrimas denunciando aos que passavam ao lado fazendo cooper, o quanto seu coração estava ferido. Sentou em outro ponto da praça, sem se importar com um homem bêbado dormindo no banco ao lado. 

Passaram-se trinta minutos e não pôde deixar de recordar as últimas palavras que ela tinha dito antes do encontro. “Não posso largar minha vida por você, assim tão subitamente. Me perdoe, mas dessa vez eu tenho que ir pela razão, me perdoe”. Sentiu um formigamento na face. Um leve ardor nos olhos. A vista foi ficando embaçada. Finalmente as lágrimas venceram. Desceu a primeira delas, orgulhosa. Escorreu pela face passando por seus lábios. Era o beijo que não recebera da sua Flor sendo pago com o gosto salgado da tristeza. Em seguida vieram as outras. 

Reconheceu que a moça não seria sua namorada, noiva e esposa. Ela já era tudo isso para outra pessoa e escolheu continuar sendo. Não entendia a natureza do amor dela e isso o incomodava. “Você quer sempre classificar as coisas, ter o controle da situação, mas tem coisas que nem um sábio como você é capaz de entender”, ela dissera uma vez. Tirando a parte do sábio, ela estava certa em todo o resto. 

Levantou ainda relutante. Hora de partir. “Me perdoe, mas dessa vez tenho que ir pela razão, me perdoe”, ainda ecoava dentro dele. “Por outra pessoa, ela deixou o coração ditar o caminho. Por mim, ela não veio, pois a razão falou mais alto”, murmurou olhando para o bêbado que se espreguiçava após acordar do sono dos despreocupados. Não pôde deixar de pensar que ela de fato nunca o amou. Fizera tantos esforços por ela até chegar esse dia crucial, mas ela nunca lhe deu mais que palavras e ilusões. Sentiu raiva, mas depois arrefeceu. Ela também lhe deu esperanças e isso era muito mais do que imaginava. Ela fizera seu peito ficar aquecido de amor, e o vazio que agora inundava o tórax era o risco a se correr. 

Finalmente aquela história havia chegado ao fim, e, embora o final fosse triste, carregava consigo a fé em dia melhores. Enquanto isso, David Gilmour ainda cantava a sua dor em Echoes:” A million bright ambassadors of morning. And no one sings me lullabies. And no one makes me close my eyes. So I throw the windows wide. And call to you across the sky”. Levar consigo a esperança que a sua Flor fizera brotar era o seu prêmio de consolação.



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