segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Carta a uma Flor



Levantou já no meio da manhã. A cabeça doía como se estivesse com ressaca, embora não tivesse bebido. Foi até a janela e lembrou-se de seu irmão mais velho. Estava apaixonado como um adolescente, mesmo aos 50 anos de idade. No dia anterior viu seus olhos brilharem como nunca havia visto antes. O domingo tinha sido bom, apesar de tudo. A experiência vivida pelo irmão serviu para dar alento ao desânimo que agora sentia. O homem separou-se da esposa com quem tinha dois filhos. Engatou numa relação logo em seguida.

 Foram 20 anos vivendo com uma segunda mulher e os contatos com a antiga esposa eram sempre burocráticos. Apenas para tratar dos filhos e para discutir asperamente. Os dois pareciam se odiar de corpo e alma. Mas como dizia Cartola, a vida é um moinho e numa dessas voltas ele se viu em crise com a atual esposa. Relações se deterioram como uma cédula de dois reais se desgasta em contato com o mundo. 

E o desgaste dessa relação fez ressurgir algo que seu mano acreditava estar morto. Num dia como outro qualquer olhou para a primeira esposa. O coração acelerou. As mãos ficaram encharcadas por um suor frio, contrastando com o hálito quente daquela boca que não beijava há mais de 20 anos. As línguas roçavam uma na outra, como se quisessem sentir em dois minutos de beijo o que reprimiram involuntariamente por duas décadas.

O irmão pediu que lhe desejasse sorte. Mas quem ama não precisa de sorte, só precisa ser amado de volta ou ter força para lidar com o sentimento não correspondido. Não era o caso de seu brother. As trocas de olhares e os beijos desengonçados de quem está reaprendendo a amar aos 50 anos, denunciam que sorte ele já tem de sobra. 

Ao lembrar da felicidade do irmão sentiu uma ponta de admiração. Pois esperava um reencontro com a mulher que ama e torcia para que não demorasse. É apenas ilusão. Mas uma ilusão boa. Esperança em dias mais felizes. Seu irmão lhe devolvera a fé e por isso era grato a ele.

Também pensou na ironia da situação. Seu irmão aos 50 anos redescobrindo o amor, enquanto ele pensava que nunca mais amaria de novo. Claro que pode amar novamente. Nem que seja a mesma Flor que agora o deixou, ou quem sabe outra flor igualmente única. 

Mas sabia que por hora ela não ficaria ao seu lado e que era preciso deixá-la viver. Talvez não estivesse pronta para ser sua. É bem verdade que ela falava querer ficar junto dele, mas também dizia sempre que ele tinha chegado na hora errada na vida dela. Como prova de amor à moça e a si mesmo, aproveitou que ela se afastou e resolveu colocar reticências na história dos dois. Talvez nunca mais a visse novamente, mas se assim fosse, seria pela vontade dela, e só cabia respeitar. Isso também é uma prova de amor.

Resolveu escrever uma carta para ela. Não enviaria a carta, mas escreveu mesmo assim. As palavras não eram apenas para ela, mas também para ele mesmo. Talvez a moça lesse algum dia, ou não. Mas o essencial é que precisava deixar um último registro de seu amor. Pôs-se a escrever ouvindo canções de Dire Straits. Walk of life, música que fala de esperança, apesar das dificuldades. Your latest Trick, canção contando a história de um homem forte, mas despedaçado, juntando forças para se deparar com as próximas surpresas à espreita na esquina. E Romeo and Juliet., música que conta perfeitamente a história de amor reprimido que havia entre os dois. “A trilha sonora perfeita”, pensou.

Meu amor,

Essa segunda-feira tem o mesmo sabor amargo e o aspecto modorrento de todas as outras. Nunca fui fã desse dia da semana. Mas hoje algo está diferente. Assim que o relógio marcou meia-noite, a segunda-feira foi chegando com um indisfarçável ar de saudade. Saudade daquilo que pode nunca mais voltar. 

E essa saudade tem nome. O teu nome. Ela tem rosto. É o teu. Também tem cheiro. E de quem mais seria esse cheiro, minha Flor? Essa saudade fala. A voz dela você sabe de quem é. E ela me diz coisas horríveis. Me fala do quanto fui tolo por me despir assim para ti. Mas li em algum lugar que quem não mergulha numa paixão, num amor, não sabe o que é viver.

E minha Flor, eu vivi. E como vivi! Foste o amor mais cristalino e intenso de minha vida. Uma amiga me disse que esse seria o meu amor mais bonito, mais especial, justamente por nunca ter se concretizado. Ela acredita, talvez por experiência própria, que quando estiver velhinho, irei lembrar-me de você, imaginarei como teria sido viver contigo, fazer amor contigo, criar filhos ao teu lado.

Não sei se lembrarei de ti pro resto da vida. E se lembrar, talvez não seja como hoje, esse misto de mágoa e amor. Mais amor do que mágoa. É provável que nem mesmo você mantenha isso vivo na lembrança. Afinal, uma música que você gosta muito diz “como é difícil viver carregando um cemitério na cabeça”. 

Vi que você está feliz. Antes de cortar todos os elos virtuais que tinha comigo, pude ver a tua alegria ao lado do teu rapaz. Talvez o nosso amor proibido tenha durado o suficiente para você. Não durou para mim. Eu queria legitimar esse amor. Pensando bem, isso é besteira. A maior legitimidade que preciso é a série infindável de vezes que namoramos às escondidas e o amor jurado de parte à parte. 

Também notei um pouco de tristeza no seu olhar. Não sei se é resignação por se achar sem opções para mudar sua vida e ter se conformado. Ou talvez seja apenas minha mente procurando um motivo para continuar acreditando que, em algum instante você baterá à minha porta pedindo abrigo nos meus braços e me chamando de “meu bem”. 

Essa é a primeira vez que tenho convicção de que o último adeus dado por nós dois foi mesmo o derradeiro. Os outros eram sempre um “até a próxima despedida”, pois sempre retomávamos o contato, as juras de amor e as discussões. Fomos pateticamente humanos, meu amor. 

Lembra-se daquela citação que dediquei a ti? “Nos encontraremos onde não haverá trevas”. As vezes torço por isso, mas não tenho ilusão de que aconteça. Engraçado. Sempre te disse que não tinha ilusões e você idem. Mas nunca sonhamos tanto como nesses meses em que dividimos esse amor. Se é que você me amou mesmo. Perdoe a dúvida. A mágoa me ensina a ser cético.

Comprei algo para você. Lembra que prometi certa vez que no dia em que ficássemos juntos eu te daria um presente? Pois é. Como nunca mais te verei, creio eu, te digo o que é. Um livro daquele poeta e romancista americano, com nome russo e nascido na Alemanha. O irônico é que ele não chegou. O pedido feito pela internet foi extraviado. Não sei se devo encarar isso como um sinal de que não era mesmo para ficarmos juntos. Todavia, refiz o pedido. Sou teimoso e persistente. 

Se eu nunca te der esse presente, pelo menos terei uma boa leitura. Fazer o suco de acordo com a fruta que brota no meu pomar é o que há de melhor em mim. Espero que os frutos de seu quintal não sejam amargos. Finalizo dizendo o que sempre te disse esse tempo todo: eu te amo, minha Flor! Lamento não ter te conhecido quando poderia te roubar para mim. 

Do sempre seu, Alfafa.

Fortaleza, 15 de setembro de 2014.

Quando terminou a carta, enxugou as lágrimas dos olhos, preparou o almoço com carinho e dedicação, como se a sua Flor viesse comer. Arrumou-se e foi ao trabalho. Havia contado um fragmento da própria história. No emprego outras pessoas esperavam para terem suas histórias contadas também.

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