segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Um ano e meio em uma semana

Foi numa noite de sábado que apareceste em minha vida. Entrou pela porta da frente e me vi ali, paralisado, olhando para a tua maquiagem gótica. O coração já calejado pelas intempéries da vida e desgastado pelas aventuras afetuosas, alertou-me que algo estava fora de lugar. Aquele sábado durou semanas em que qualquer desculpa era válida para te ver, te ouvir e saber mais a respeito de quem eu nunca tinha visto antes, mas sentia um imensa vontade de sempre estar perto.


No domingo descobri o amor. Descobri nos teu batons roxo e vermelho, nos teus quadris levemente avantajados, nos teus seios tímidos, mas bonitos. No cangote adornado com teus cabelos e um jardim bonito em tuas costas. Nos teus olhos misteriosos e teu jeito dissimulado de flertar comigo sob os olhares de todos e ainda assim não ser percebida. Foi no entardecer dominical, triste e solitário, que bateu vontade de dizer “eu te amo” pela primeira vez.


Na segunda-feira, como todo cidadão de bem, fui à luta. Mais do que ganhar o pão para saciar minha fome, fui ganhar teu amor para acalmar meu peito. Lutei muito. Peguei ônibus lotados, fui empurrado e empurrei nas filas dos terminais. Pelo teu amor já não distinguia horário comercial de hora extra. Amar-te não foi trabalho, mas aprendizado e divertimento.


Na terça-feira quase nos beijamos. Eu ainda cansado pela segunda-feira intensa, você triste pelo esporro levado de quem julga ser teu superior. Buscou conforto. E te confortei. Terça é um não-dia. Não é início de semana, mas também não é final de semana, sequer é o meio. Não havia dia mais propício para eu lamentar o beijo que não roubei. E como eu lamento.


Na quarta-feira nos amamos. Foram tantas juras de amor, tanta troca de afeto que aquilo mais parecia um final de semana prolongado. Contou-me teus segredos, te contei os meus, criamos segredos novos que só dizem respeito a nós dois. Foi um dia mais bonito do que uma quarta-feira merece ser.


Na quinta-feira, brigamos. Não poderíamos ficar juntos, foram tantos senões, parecia o prenúncio que seria apenas uma semana de amor e desejos. Nos reconciliamos e buscamos terminar a quinta-feira juntos, mesmo contra todas as possibilidades. Sabíamos que logo findaria o nosso tempo, mas desde então passei a me perguntar se tantos obstáculos não são na verdade um teste para nós dois.


Na sexta-feira senti tuas mãos apertando-se forte às minhas. É saber que é hora de se despedir, mas querer ficar para sempre. É saber que devia te deixar ir, mas implorar para que ficasse. É saber que era necessário deixar o tempo fazer cerão em plena sexta para superar o que precisa ser superado, mas desejar perpetuar cada lembrança, na esperança de que elas se transformem em nosso futuro.


No sábado soube de sua partida. Uma semana que durou quase um ano e meio, chegava ao fim e era preciso seguir adiante. Neste dia tivemos os nossos carinhos mais sinceros e tristes e também nossa briga mais visceral. Naquela noite de sábado não havia espaço para sorrisos de alegria, mas tentamos juntar o melhor de nós, para que o outro soubesse que havia amor, tão forte que duraria muitas outras semanas ainda, apesar da distância.


No domingo você partiu. Roberto Carlos me disse nos diversos programas matinais rádios Brasil afora, que eu até poderia perguntar como vai você, mas por um bom tempo, não poderia mais te chamar de minha mulher pequena. Como a moça que pega o ônibus de volta para a cidade grande após um final de semana na casa das avós, você partiu decidida, enquanto eu, sua aventura de férias, fiquei olhando a vida levar meu amor embora. Furei os pneus do ônibus, me joguei na frente da estrada, me vesti com “mil girassóis da cor do teu cabelo” e libertei “meus pensamentos da cor do seu vestido”, mas você ainda assim, se foi.


E hoje revolvo a terra azul que você pisou, à espera de que um dia retorne. “Como vai você? Você vem? Ou será que é tarde demais? “.


Tomara que não.


domingo, 9 de novembro de 2014

À espera de um novo Big Bang

No início não havia nada. Só terra seca e um céu acinzentado, quase enegrecido. Nada brotava dessa terra, nada vagava pelo ar, não havia oxigênio, sequer bactérias. Frio como Netuno, insignificante como Plutão, insaciável como um buraco negro.

Mas não foi preciso mais que um sorriso para espantar o cinza do céu. Quando os olhares se encontraram, foi como se alguém dissesse: “que haja luz!”, e desde então não houve medo do lado escuro da Lua.

Um sopro de ternura e a atmosfera estava oxigenada. Um carinho e Netuno já era a face de Vênus virada para o Sol. Sua voz foi música que rompeu o silêncio daquela morte coletiva. A terra pulsava novamente, o líquido quente já passeava pelas artérias subterrâneas daquele planeta semi-morto.

E pouco a pouco, tudo foi se ajustando. Coisas antigas cedendo espaço para inevitabilidade do novo. Era a maravilha da transformação em pleno processo evolutivo. Chuva ácida por água abundante, tão volumosa que saltou aos olhos de quem viveu aquilo. Redemoinho por brisa matinal, trazendo as boas novas de dentro para fora. O Universo tomou ciência de que havia vida inteligente naquelas paragens.

Frio solitário pela quentura de beijos. A morbidez deu lugar ao movimento cadenciado daquele corpo mais que celeste, orbitando o outro corpo. Chocando-se sem se destruírem. Repelindo-se para reaproximarem-se em seguida. Cada eclipse, um sussurro. Cada gemido, mais terra fértil.

Mas tudo que viceja, um dia morre. A física quântica não explica, mas foi escrito por alguém que, o pó é o início e o fim de tudo. Aquele um metro e cinquenta e cinco de sol modificou sua órbita. Acasos que se Galileu percebeu, foi forçado a negar.

As flores murcharam, as varejeiras não iam mais à caça, nem a chuva ácida restou. O planeta definhava, como tinha que ser na lógica daquele universo. Primeiro a tempestade para preparar o terreno. Em seguida a bonança agraciando tudo com vida e beleza. No final de tudo, a morte, como única certeza incontestável. Ficou apenas a esperança de que um novo Big Bang surja no horizonte do Espaço-Tempo.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

123 dias sem ela

Hoje completo 123 dias sem você. Não me censure pela data quebrada, na verdade até prefiro números arredondados, mas a saudade calhou de esfaquear meu peito logo no centésimo vigésimo terceiro dia que estou sem te ver. Não foi numa quarta-feira como hoje, dia comercial com cara de cinzas de carnaval, mas numa noite de sábado que olhei teu corpo pela última vez.

Ainda lembro cada movimento que fizeste em minha chegada. Levantou-se do sofá onde estava deitada, de ladinho, blusa de manga longa, bermuda jeans, cabelos caídos cobrindo o pescoço. “Minha moleca”, pensei comigo. Minha vontade era acariciar teus cabelos e dar um beijo na testa, quem sabe na boca. Mas olhos vigilantes espreitavam nossos sentimentos e censuravam as loucuras que carregamos no quengo e não ousamos dizer a ninguém.

Fiquei só na vontade. Se soubesse que o desejo não saciado perduraria pela próxima centena de dias, teria furado os olhos bisbilhoteiros que inibem meu amor por ti. A despeito da ausência física, sinto a essência de teu ser. Não há canto de parede para onde olhe que eu não te veja usando uma de minhas blusas do Pink Floyd e a calcinha de renda preta, que acidentalmente deixaste à mostra naquela noite. Aposto que não sabia que eu tinha visto. Ora te vejo encostada na parede, ora comendo alguma coisa, ou mesmo mexendo nos cabelos. Sabia que ver-te brincando com as madeixas era um dos meus passatempos favoritos? Isso quando não tinham usurpado o meu direito de ficar em tua presença.

Apesar das juras de esquecimento que já fiz, das mandingas que planejo para te expurgar da minha mente e do exorcismo que já encomendei ao padre Merrin, basta fechar meus olhos para que eles encontrem os teus. Noite passada acordei com tuas mãos arredondadas e teus dedos longos percorrendo meu tórax. Foi apenas mais um sonho para a minha coleção de arremedos criados para diluir a tristeza.

E assim vou atravessando os dias. Criando fantasias para amenizar a dureza da realidade. É como o flagelado que eu fui quando criança: matava a sede com água barrenta. Ou como minha mãe e tias: coziam folha de palma para alimentar a família assolada pela seca. Hoje padeço de fome e sede tão violentas quanto as que me fustigaram na infância. Mas sobreviverei tal qual naquela época. Os meus sonhos serão a palma. Minhas lágrimas a água barrenta. O amor pulsante no peito, a promessa de dias melhores.

sábado, 25 de outubro de 2014

Transformação



O amor é capaz de tudo. Até de parar o trânsito conturbado da Aldeota, como mostra a matéria de capa do caderno Vida & Arte do jornal O Povo de hoje. É que nem o futebol: guarda em si o mistério do imponderável e não há quem seja capaz de decifrar os meandros dessa coisa abstrata, mas que se faz tão presente a ponto de nos transformar enquanto seres humanos.

Pelo amor fui tocado e transformado. Amor que uma moça, você mesma, não se faça de desentendida, despertou em mim. Eu era meio descrente nesse tipo de sentimento, mas dele ninguém foge. E resolvi não fugir de você e do que despertaste neste peito cansado e vazio.
O teu sorriso tão delicado como um poema de Manoel de Barros e teu olhar misterioso e forte como um conto de Caio Fernando Abreu iniciaram esse processo. Não diria que foi amor à primeira vista, mas quando meus olhos cruzaram os teus pela primeira vez, minhas pernas tremeram e meu estômago deu cambalhotas na barriga. Talvez para te impressionar.

Não sei se foi genuíno, ou se fizeste por carência de afeto (perdoe a incredulidade), mas a tua reciprocidade fez essa fagulha crescer a tal ponto que queima meu corpo, cega meus olhos e turva meu raciocínio com tua ausência. Meus dedos anseiam pelo teu toque. Minha boca pede a tua para matar a sede como se estivesse entornando um copo de Coca-cola. O meu tórax deseja aconchegar sua cabeça e meus braços querem te envolver e sentir o atrito de tua pele. Fosse por mim, você já estaria na vala do esquecimento que chamamos de passado, mas não depende deste cara acostumado a lidar com as intempéries da vida. Meu corpo e tudo nele pedem você. Minha mente, mais realista, também te quer, embora entenda que isso não é possível.

Jurou-me amor, mas foste embora. Azar o teu se não soube, ou não quis ficar com o que tenho de melhor: meus sentimentos. Amo-te e continuarei amando por um bom tempo. Faço isso por mim, não por você. Faço isso porque não tolero a ideia de negar o que sinto. Claro que tens motivos fortes para não viver essa história comigo. Fui intruso, admito. Aceito o amor que sentes por outra pessoa, que já estava contigo antes de minha chegada. Aceito que queiras continuar com ele o que vem sendo construído a quatro mãos.

Fomos imaturos. Eu com os meus ciúmes. Tu com as tuas reticências e meias-verdades. Mas ficou um aprendizado. Pelo menos para mim. Aprendi que amar é querer o teu bem, mesmo que não seja ao meu lado. O teu sorriso é a lembrança mais forte que tenho de ti, então não quero que ele suma de teu rosto. Nunca! Pois “continua o teu sorriso no meu peito”, como cantou Fagner. 

Aprendi o significado da palavra resiliência e ela não faz parte apenas de meu vocabulário, mas de minha vida. Sinceramente, não creio que ficaremos juntos. Não acredito que vá te ver novamente. Também poderia dizer que “não acredito mais no fogo ingênuo da paixão”, (Fagner mais uma vez), apenas para que você se sinta culpada por ter destruído o cara que tanto diz admirar, mas seria mentira. Continuo o mesmo cara inteligente, romântico e apaixonado (palavras suas). 

Não te jurei amor eterno, mas disse que ficaria uma porta aberta para você se quisesse voltar. Minha Flor esqueça isso. Estou de peito aberto para ti, mas ele se fechará bem antes de você sentir saudades de mim. Você mesma está fechando. O que sinto por ti é importante e talvez não se repita com outra pessoa nessa mesma intensidade.
Mas estou seguindo adiante, como você. Tu com tua família nascente e o amor que sente por ela. Eu, com minha solidão, e, quem sabe futuramente, com alguém que me dê mais do que palavras. 

Sempre será a minha Flor, mas mesmo as flores mais belas como tu, com o tempo perdem o vigor e a validade. As pétalas se despedaçam e caem no chão servindo de adubo para outra flor que há de brotar nesse mesmo pedaço de coração árido onde você deixou sementes. E o amor que sinto por ti não vai morrer, mas se transformar em terra fértil, onde outro amor haverá de nascer. 

Pela última vez, do teu Alfafa.

25 de outubro de 2014

Esse texto não será deletado de forma alguma. Achou ruim? Me processe!

sábado, 18 de outubro de 2014

O último trem



Quis acenar para você.
Mas seu olhar nem notou.
Busquei nas minhas entranhas,
Aquela declaração de amor mal acabada, porém sincera,

Quis beijar teu rosto,
Boca, nariz, seios e todo o resto,
Senti teu cheiro enquanto sonhava,
Mas acordei com a solidão fitando-me curiosa,

Indagou-me dessas coisas,
Que trago no peito e que não têm jeito,
Tal qual cantou Belchior antes de sumir nas asas do sonho,

Mandei-a embora e fui atrás de você,
Marquei encontro contigo, reservei mesas, vesti a melhor roupa,
Mas quando o motorista abriu a porta ninguém desceu do fusca 73 que mandei para te buscar,

Você diz que nos cruzamos muito tarde,
Que nosso amor pegou o trem atrasado,
No entanto, estamos calados em nossos lugares,
Olhando para o nada e esperando a próxima virada do ponteiro,
E assim, ruminando lamentações,
Vamos fazendo sala para nossa solidão, enquanto a morte não vem.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

O vendedor de água



Ficava boa parte do tempo olhando para o nada. Até o telefone tocar e ele colocar os garrafões de água e sair de casa para fazer as entregas dos seus clientes. Tornara-se tão mesquinho quanto solitário. Sua vingança pelo mundo não lhe dar a mínima era vender garrafões de água mineral por um valor pouco acima da concorrência. Ainda assim, com seus modos falsamente gentis e sua simpatia forçada, cativava a clientela evitando assim morrer de fome.

Não era má pessoa. Também não era boa. Era um indivíduo sem sal, tempero, colorau, alho, cebola ou pimenta de cheiro. Era um sujeito triste. Triste no sorrir, no andar, no falar. Não que vivesse reclamando do mundo, isso só fazia consigo mesmo. 

Era tão desprovido de conteúdo que se limitava a falar do Palmeiras e do Ceará, seus times do coração. Nada de política. Votava em quem tivesse mais chances de vitória, para não perder o voto. “Quem usa brinco é viado. Tatuagem é enfeite de maconheiro. Maconha é coisa de bandido”. Eram seus princípios. Os comentários futebolísticos eram tão ruins quanto as cantadas com as quais não conquistava ninguém. Resignou-se em ter a masturbação como companheira e válvula de escape da vida sem siginificado. 

Não é que tivesse uma vida ruim. Tinha um emprego que lhe permitira comprar um carro. Nada mal para quem atravessou o trigésimo aniversário alimentando-se e vestindo-se à custa das aposentadorias dos pais. Vender água mineral na própria casa foi uma forma de recuperar um pouco de sua dignidade e de sua conta bancária. E era o próprio patrão. Quê mais poderia querer?

Queria deixar de ser tão medíocre. Sim! Sabia da própria insignificância, mas preferia acreditar que o mundo era complicado demais. As mulheres eram complicadas demais. E é aí que residia o insosso de sua vida. Cobiçava todas as mulheres que passavam na sua frente, mas não chegava perto de nenhuma. Cobiçou minha ex-namorada. Sempre que a moça ia à minha casa, com seus vestidos um pouco acima dos joelhos, as pernas sempre à mostra e bem torneadas pela natação, a cintura fina, sobressalente pelas roupas pin up, era alvo dos olhares sedentos do solitário entregador de água.

Desejava vorazmente a mulher do próprio irmão, e a maioria das moças que frequentava a igreja. Achou que a religião lhe traria respostas, mas os cultos eram maçantes e os sermões do pastor nada lhe diziam. Mas continuava frequentando o templo todos os domingos. Ver as meninas-moças em seus vestidos colados e compridos, com um decote aqui e outro acolá mostrando algo mais, era melhor do que assistir o Domingão do Faustão. Já bastava ter que passar as noites úmidas e calorentas do Conjunto Esperança vendo o Programa do Ratinho.

 Não tinha TV a cabo. Achava um luxo desnecessário. Então, ver filmes de ação (os seus prediletos), só na Tela Quente. Fazer sua atividade favorita depois de comer e dormir: masturbar-se, vendo o Sexy Hot, ou mesmo assistindo o Multishow, após a meia-noite, também estava fora de questão. A masturbação era o momento do dia em que ele mais fazia uso da imaginação. Adquira uma memória espantosa e uma incrível capacidade de recriar cenas na sua cabeça. É que o Cine Band Privê só passava uma vez por semana e ele decorava os momentos mais quentes de cada filme para ter com o que fantasiar na sua putaria-íntima-diária.

Houve um tempo em que recorria a cabarés para acalmar a sua volúpia. Mas percebeu que suas finanças corriam sério risco de deterioração. Desistiu de vez dos festejos noturnos, quando uma vez embebedado, lhe tiraram os tênis Nike falsificados, comprados por R$ 40 a um coreano na Feira da Parangaba. Também levaram as cinco onças que tinha na carteira. Travessura de duas moças com quem havia saído. Desse dia em diante, achou que nenhuma mulher merecia ser tratada como “mulher direita”, segundo seus próprios conceitos sobre o que vem a ser isso. Passou a detestá-las tanto quanto as queria. 

Não era de todo feio, mas se achava tão insípido, que só sentia alguma segurança com o sexo oposto quando dirigia o seu Corolla, ano 2003, comprado com as economias de anos de trabalho. Mesmo assim, as investidas eram raras e problemáticas. Não sabia o que se passava consigo. Ou até sabia, pois era impossível esquecer. Uma noite chegou em casa. Não a casa onde agora vivia, mas a residência que já dividira com sua ex-esposa. Havia um silêncio incomum que só era interrompido por algo parecido com ranger de dentes. À medida que adentrava o imóvel, ouvia o barulho cada vez mais forte. Cinco passos adiante e teve certeza que o som desagradável vinha de seu quarto. Não era ranger de dentes, mas o ranger da cama. Da sua cama, onde dormia com a esposa diariamente e fazia sexo com ela uma vez por semana, as vezes duas.

Ao parar em frente à porta entreaberta, seu rosto ficou pálido, para em seguida avermelhar por completo. Sentiu os músculos da face retesados, o maxilar rígido pressionava os dentes inferiores contra os superiores. Estava entalado não sabia com o que, mas era algo que o impedia de ao menos balbuciar um lamento. O sangue no seu corpo pulsava acompanhando a toada do balançar da cama e seus rangidos, cujo ritmo era ditado pelas estocadas que a esposa recebia de seu amante. 

Lembrar aquilo era tortura, mas acabou se tornando um vício. Era como se precisasse tomar uma dose diária de ódio para manter-se vivo. Precisava lembrar como tudo aconteceu para despojar-se da culpa pela mediocridade em sua vida, jogando tudo sobre os ombros da ex-esposa. Não importava os sinais que ela vinha dando da falência da relação. Não fazia diferença se ela já tinha ido embora para casa dos pais várias vezes antes de ser flagrada copulando com outro, para em seguida voltar por pena do marido que dizia não saber viver sem ela. Ele não sabia viver de forma alguma, mas não entendia que esse era o problema. Também não reparara no abrir de pernas protocolar da esposa e no virar de rosto obsceno, enquanto esperava seu marido estrebuchar por dez ou quinze minutos até ejacular em sua barriga. Era o mesmo ritual toda vez que ele a procurava. Ela já não o fazia mais. Ele transava com um corpo inanimado. Não fosse a respiração mansa e preguiçosa, as batidas tranquilas do coração e o sentimento de pena e repulsa da esposa, não seria exagero dizer que ele era praticante de necrofilia.

Não fazia diferença para ele que a esposa se incomodasse com seu ciúme doentio. Ou que se enraivecesse mais ainda com a falta de carinhos, ou demonstrações de afeto do homem que tentava colocar-lhe cabresto até na ida à padaria. Havia muitos outros sinais visíveis em letreiros luminosos no semblante de sua esposa, mas o homem era egoísta demais para percebê-los. Pior que isso. Era acomodado. Terrivelmente acomodado. Não vivia. Assistia a vida passar  sinuosa e instigante tal qual fazia agora entre garrafões de água e ejaculações no chão da sala. “Mas não vale a pena encarar as coisas assim. A vida é complicada demais”, pensou mais uma vez, enquanto desabotoava a bermuda para masturbar-se novamente.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Se



Se eu te roubasse um beijo,
Se eu mastigasse tua saliva,
Se eu beliscasse teus mamilos,
E mordesse tua língua,
Se eu lambesse tuas costas,
Você ficaria ao meu lado?

Se eu te violentasse, dizendo eu te amo,
Se eu dissesse que quero apenas teu sexo
Para saciar minha sede de orgasmos,
Se eu puxasse teus cabelos,
E sussurrasse nos teus ouvidos,
Obscenidades apaixonadas,
Você seria somente minha?

Se eu penetrasse tua alma,
A partir de tua vagina,
Se eu violasse teu ventre,
Deixando lá minha semente,
Se eu arrancasse teu coração,
Para fazer dele minha propriedade,
Você me amaria?

Se eu te masturbasse fazendo juras de amor,
Se eu puxasse teus cabelos,
E beijasse tua nuca, orelhas e sorriso,
Se eu me perdesse entre suas pernas,
Para me encontrar enquanto amante,
Se eu te fizesse cavalgar, mesmo estando com os pés no chão,
Eu seria o teu amor?