sábado, 30 de abril de 2011

O Amor e o Mar

                                
          Eu a observava constantemente. Precisava vê-la, já estava viciado em  sua presença. Gostava de ver o vento balançar suas madeixas e adorava molhá-las com minhas gotas de espuma. Fitava seus olhos escuros e via neles o meu reflexo. Todos os dias podia banhar seus pés e sentir o frescor de sua pele. Regozijava-me ao ver seu semblante de satisfação. Ela me amava, disso sou sabedor. Sua pureza me fez amá-la também. Era um ritual diário e nele eu me entregava por completo. Tentava de todas as maneiras demonstrar meu amor por ela. Quando a via chegar, fazia minhas ondas subirem até tornarem-se paredões de água. Esse era meu espetáculo em sua homenagem.
         Infelizmente, esse sentimento puro e tão bonito não agradava a todos. O sol a castigava por ela gostar de mim. Não conseguia aceitar o fato de ela preferir os meus afagos. Retorcia-se de ira por ela esperar ansiosa pelas ondas que eu produzia especialmente para lhe acariciar. Queimava a terra e fazia ferver minhas águas para que assim ela não se refrescasse. Vomitava seu ódio em terríveis erupções. Eu chorava ao vê-la sofrer, mas, me consolava ao ver a infinitude de seu amor. Seu sacrifício me comovia e fomentava meus sentimentos mais nobres.
          Entretanto, percebi um dia que ela não era totalmente feliz. Assim que constatei isso, entrei em pânico. Sem me dar conta, destruí vilas, afundei barcos, matei inocentes, e ninguém entendia aquele rompante violento. Muitos diziam ser fúria, mas na verdade era só medo. Medo de perder meu grande amor e de voltar à minha antiga solidão. Demorei para entender que o motivo de sua aparente tristeza não era eu.Ela também achava que eu estava infeliz.Pensava que eu estava triste e frustrado por dar tantas provas de amor. Em contrapartida ela achava que não tinha me brindado com carinho. Via-se incapaz de me fazer feliz.
          Não entendia que minha felicidade era a felicidade dela, e que a prova de amor que eu precisava era o seu sorriso. As intrigas do Sol também contribuíram. Fê-la pensar que nosso amor era impossível. Ela precisou vir ao meu encontro e repousar eternamente em meus braços para entender que não existe impossível. Pelo menos não para nós.