sábado, 6 de agosto de 2011

Entregar-se

Numa manhã distante de sábado, violões despejam seus acordes em nossa homenagem. Enquanto ouço o estrilar típico de uma refeição matinal sinto o aroma doce do café que me desperta.Uma guitarra suave e desenvolta toma seu lugar. Agora penso em você. Como nunca antes havia pensado. O café misturado ao leite confunde-se com a cor de tua pele. Dentro da xícara vejo teus olhos me fitando carinhosos. Por um instante sou capaz de sentir o teu rosto encostado ao meu.

Você me diz que ele é cheio de cicatrizes. Mas, só vejo as marcas da natureza que te brindaram com o que há de mais belo. Teus olhos puxados agora estão mais perto. Me olham, me revistam, em busca de algo. Ainda não sei o que é. A guitarra continua forte. Ditando o ritmo alucinógeno desse homem, que resolveu entregar-se feito uma criança se expondo a uma fera indomável. Pois quando se está próximo de algo tão etéreo como você, o melhor é submeter-se ao seu jugo. Assim terei a certeza de que não estarei sozinho.

Nos mais violentos cataclismos, sei que haverá uma mão segurando a minha. Quando trombetas soarem e cavaleiros descerem dos céus,sei que terei minha protetora. Quando o inverno for intenso e meus lábios ressecarem, sua boca aquecerá a minha. Quando meu peito não mais pulsar, seu beijo será minha última lembrança e suas lágrimas me embalsamarão.

Aflaudisio Dantas

sábado, 7 de maio de 2011

A Ponte dos Ingleses


             Aqui todos os fins de tarde são igualmente belos. O melhor palco para o espetáculo mais gracioso. Nesse mesmo lugar em duas sessões diárias o sol desperta e dorme. Para complementar o espetáculo, como numa pincelada aparecem os pássaros rasgando o céu, abrilhantando ainda mais essa obra de arte da natureza. Uma engenhosidade humana se sobrepondo às águas e nos brindando com paisagens belas, sons agradáveis e companhias interessantes. Essa é a Ponte Metálica. Ou, como outros preferem: Ponte dos Ingleses.
               Ponte dos Ingleses, por que esse nome para uma construção feita no Ceará? Simples, a obra foi concebida e executada por engenheiros britânicos. A finalidade era dar a Fortaleza uma respeitável e útil estrutura portuária. É bem verdade que do ponto de vista prático a obra foi um fracasso. Tanto é que nem chegou a ser totalmente acabada. Já que foi explicado o porquê de chamá-la de Ponte dos Ingleses é melhor explicar o porquê de Ponte Metálica.
               Quando de sua elaboração alguém teve a “genial” ideia” de construir toda a estrutura da ponte de metal. As vigas de sustentação ficariam submersas na água. Todos sabem que metal não se dá muito bem com líquido e em apenas duas décadas a maresia tratou de deteriorar toda a estrutura da ponte que teve de ser restaurada. Após a restauração foi construído o Porto do Mucuripe e toda a atividade portuária foi transferida para lá. Dessa forma, a Ponte Metálica ficou abandonada. Não se viam mais no local, cenas muito comuns de outrora: navios partiam ou ancoravam, e então se organizavam verdadeiras festas no cais tamanha era a quantidade de pessoas que faziam questão de presenciar tais eventos.
               Com o passar dos anos ela foi sendo pouco a pouco esquecida pelos que comercializavam e navegavam pelo mar. Porém, após cem anos de existência, a Ponte dos Ingleses tem sido revitalizada. E voltou a ser palco de grandes aglomerações. No entanto, as multidões que agora se reúnem não estão lá para ver navios ancorarem e partirem, mas sim, para admirar o pôr do sol. Sem dúvida esse é um espetáculo muito mais belo, mais romântico e poético. A ponte Metálica é um reduto para os apaixonados, um acalanto para os solitários, um desafogo para os estressados e um refúgio para os turistas.

sábado, 30 de abril de 2011

O Amor e o Mar

                                
          Eu a observava constantemente. Precisava vê-la, já estava viciado em  sua presença. Gostava de ver o vento balançar suas madeixas e adorava molhá-las com minhas gotas de espuma. Fitava seus olhos escuros e via neles o meu reflexo. Todos os dias podia banhar seus pés e sentir o frescor de sua pele. Regozijava-me ao ver seu semblante de satisfação. Ela me amava, disso sou sabedor. Sua pureza me fez amá-la também. Era um ritual diário e nele eu me entregava por completo. Tentava de todas as maneiras demonstrar meu amor por ela. Quando a via chegar, fazia minhas ondas subirem até tornarem-se paredões de água. Esse era meu espetáculo em sua homenagem.
         Infelizmente, esse sentimento puro e tão bonito não agradava a todos. O sol a castigava por ela gostar de mim. Não conseguia aceitar o fato de ela preferir os meus afagos. Retorcia-se de ira por ela esperar ansiosa pelas ondas que eu produzia especialmente para lhe acariciar. Queimava a terra e fazia ferver minhas águas para que assim ela não se refrescasse. Vomitava seu ódio em terríveis erupções. Eu chorava ao vê-la sofrer, mas, me consolava ao ver a infinitude de seu amor. Seu sacrifício me comovia e fomentava meus sentimentos mais nobres.
          Entretanto, percebi um dia que ela não era totalmente feliz. Assim que constatei isso, entrei em pânico. Sem me dar conta, destruí vilas, afundei barcos, matei inocentes, e ninguém entendia aquele rompante violento. Muitos diziam ser fúria, mas na verdade era só medo. Medo de perder meu grande amor e de voltar à minha antiga solidão. Demorei para entender que o motivo de sua aparente tristeza não era eu.Ela também achava que eu estava infeliz.Pensava que eu estava triste e frustrado por dar tantas provas de amor. Em contrapartida ela achava que não tinha me brindado com carinho. Via-se incapaz de me fazer feliz.
          Não entendia que minha felicidade era a felicidade dela, e que a prova de amor que eu precisava era o seu sorriso. As intrigas do Sol também contribuíram. Fê-la pensar que nosso amor era impossível. Ela precisou vir ao meu encontro e repousar eternamente em meus braços para entender que não existe impossível. Pelo menos não para nós.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Davi contra Golias

Tinha tudo para ser uma luta injusta. E acabou sendo. Por mais que se tente fugir do clichê Davi contra Golias é inevitável aludir a essa metáfora tão desgastada pelo senso comum quando falamos de Flamengo e Horizonte. Afinal, era o time do bonde sem freio contra os azarões cearenses. Era assim que a grande imprensa via o confronto de ontem pela oitavas de final da Copa do Brasil.
Não há como negar que a superioridade do Flamengo era absurda. Só o salário de Ronaldinho Gaúcho é suficiente para pagar algumas vezes toda a folha do Horizonte. Era a disputa de um centenário hexacampeão brasileiro contra um clube que tem menos de dez anos de existência profissional. Felizmente, os tempos são outros e apesar da enorme diferença que possa existir entre dois clubes de realidades tão distintas o empenho, a garra e a disciplina tática podem ser o fiel da balança.
 O maior mérito do submarino amarelo cearense foi saber colocar-se no seu devido lugar. E não digo isso de maneira desdenhosa ou pejorativa com o galo do tabuleiro. Sabendo da pressão que sofreria, e de fato nos minutos iniciais o Flamengo foi como um rolo compressor para cima dos cearenses, o treinador Roberto Carlos e seus comandados não se fizeram de rogados. Aceitaram a carapuça de saco de pancadas que todos lhe impuseram, e quando digo todos são todos mesmo, e foram pro jogo.
O que ninguém esperava é que o time “pequeno” do Ceará tiraria proveito do pouco caso que se fazia dele, fazendo com competência o que se esperaria de qualquer equipe semelhante; defender, defender e defender. Atacar só quando tivesse chance. O galo até se assustou no início como seria comum a qualquer equipe que tivesse de enfrentar o Flamengo pela primeira vez na casa do adversário.
Passado o susto os jogadores mostraram ter sangue no olho e coração de guerreiros para suportar todas as intempéries da partida. Tiveram personalidade para buscar a recuperação de um resultado adverso. O surpreendente Siloé que já anda sendo sondado por clubes maiores como o Ceará, foi infernal para os cariocas. Autor da jogada que deu origem ao gol do Horizonte, jogada essa, aliás, que foi a mais bonita da partida provocou a ira dos jogadores do time rubro-negro. Um deles foi Tiago Neves que anulado pela defesa do Horizonte, desferiu uma cotovelada no jovem atacante.
E essa foi a tônica do jogo, um time grande cheio de craques que não conseguia jogar bem contra uma equipe notadamente inferior. Resultado disso foi um Flamengo que foi ficando nervoso e agressivo à medida que ia se aproximando o final da partida, enquanto o Horizonte saia sempre na “boa”, e vez ou outra botava o goleiro Felipe para trabalhar. Nem parecia que o time “pequeno” e “inexperiente” era o Horizonte.