sexta-feira, 29 de maio de 2009


Descoberta Fúnebre

Caminho por cima de toda a carniça.
Sinto na pele um calor intenso.
Protejo a boca com um lenço.
Não da poeira, mas, do cheiro ocre.

Fixo o olhar numa caveira,
Que decomposta jaz no chão.
Sinto o pulsar do seu coração,
Como se ainda tivesse vida.
Vejo a minha ruína esculpida,
Nesse rosto fétido e magro.
Continuo andando, mas, com cuidado.
Pois não quero sujar meus sapatos.

Olho novamente para o corpo magro.
Parece que antevejo meus infortúnios.
Sinto-me acometido por uma angústia,
Que se desenvolve no meu inconsciente,
Se fazendo aos poucos onipresente.
Quando noto, já estou envolto,
Num nevoeiro denso, incrivelmente escuro.
Desejo sair, uma saída procuro
Mas esbarro sempre na maldita caveira.
Que agora parece aprisionar-me,
Com seu olhar a me estremecer.

"Estarei louco?" Me indago num instante
Penso em gritar por socorro,
Mas, quando vou falar já não sinto a língua
Serpentear dentro da minha boca.
Também não vibram minhas cordas vocais.

Começo a correr, mas, correr para onde?
Onde quer que eu olhe é sempre a mesma cena.
Por um momento penso em Helena,
Que deve estar me esperando.
Mas, de repente, vejo Helena chorando,
Curvada sobre um caixão.
Corro para socorrê-la de tal aflição.
Mas fico paralisado ao chegar.
Instantaneamente desato a chorar.
Pois agora percebo o que se passa.

Vendo minha grande desgraça,
Amaldiçoo tudo o que há no mundo.
Sinto-me deveras inconformado,
Só me resta exlcamar desolado:
Oh! Meu Deus! Sou eu este defunto!

Aflaudisio Dantas

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Lágrimas de Deus

Já estava ali a muito tempo e nada acontecia. Três ônibus já haviam chegado e em nenhum deles ela veio. A chuva comecara a engrossar e penetrava pelas folhas da copa da árvore, indo bater direto em seu rosto, escorrendo pela sua face, embaçando seus óculos. De súbito, uma pequena lágrima brotou no canto do seu olho; mas era tão tímida que mal poderia ser notada. Mas, como se fosse combinado,à medida que a chuva ia aumentando, suas lágrimas também aumentaram.
Estava com o coração destroçado, só o que podia fazer era chorar.Por ser introvertido, ficou com receio de que as outras pessoas percebessem que estava chorando. Tentou então de todas as maneiras disfarçar o choro e obteve um certo êxito.
E enquanto chovia, ele ficou sentado esperando, mesmo sabendo que seria em vão.Subitamente percebeu que num banco próximo ao seu tinha um senhor também sentado a lhe observar. Foi então que este senhor, de cabelos grisalhos inclinou-se e fez a seguinte pergunta:
_Por quê está chorando meu filho?
Ele então respondeu visivelmente contrangido:
_Não estou chorando. É apenas a água da chuva que cai sobre meus olhos e escorre pelo meu rosto.
O velho respondeu:
_Não precisa ficar envegonhado meu filho. Eu também já fui jovem, sei como se sente. Pois um dia, há muito tempo, eu fiquei esperando por uma pessoa que era muito importante para mim. Infelizmente ela não apareceu. Só o que pude fazer foi chorar. Minha tristeza era tão grande que até Deus chorou comigo,exatamente como agora.
Aflaudisio Dantas

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Redenção

De forma assustadora,
Invadiu todo o meu ser.
Redirecionou o sentido ,
Da minha existência.
Fez meu coração débil e gelado,
Se transformar num ser com vida própria
Meus dias que eram cinzentos,
Tornaram-se multicoloridos.
Minhas músicas melancólicas,
Ficaram mais alegres.

Fizeste revolução dentro de mim.
Da minha alma até a carcaça.
E quando tudo já era diferente,
O céu já não estava nublado,
E as flores não murchavam mais:
Sob o véu da covardia
Tu me abandonaste.

Nem ao menos foste sincera,
Nem me deste satisfação.
Apenas, virou as costas.
E à medida em que te afastavas,
Tudo ia desabando.

Os dias que antes eram cinzentos,
Agora são negros por completo.
No lugar do céu nublado,
Cai uma chuva torrencial.
Mas, o que não mata fortalece.
E desse mal não morrerei.
Assim como fui abandonado,
Abandonarei também este mundo esquizofrênico...

Aflaudisio Dantas